Mutiaulão? O que é isso?

Por Mª Ariane Pegoraro Nuncio

Os Multiaulões têm sido um dos diferenciais do Colégio Mutirão Objetivo de Bento Gonçalves. Desde o mês de junho de 2017, estamos desenvolvendo aulas interdisciplinares em que os educadores do Colégio, em parceria com outras instituições, têm trabalhado os mais diversos temas e assuntos presentes nos vestibulares e no ENEM. Esse mesmo projeto está sendo oferecido, também, para as três séries do Ensino Médio.

A interdisciplinaridade não é um tema novo, estando no Brasil desde a Lei nº 5.692/71, mais fortemente com a Lei de Diretrizes e Bases para a educação, a Lei nº 9.394/96. Os próprios Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) já apresentam essa estratégia como algo possível de ser trabalhado nas escolas; mas, infelizmente, no ensino da maioria das escolas, o conhecimento ainda é “individualizado e compartimentalizado como se fossem gavetas”.

Fazenda (1993) aponta que “os currículos disciplinares levam o aluno ao acúmulo de informações. Sua superação exige uma mudança de atitude perante o problema do conhecimento”.

Para esse mesmo autor “o pensar interdisciplinar tenta, através do diálogo com outras formas de conhecimento, interpenetrar pelos diversos campos do saber”.

Diante dessa realidade, o nosso Colégio vem rompendo com o método tradicional, que pouco contribui para a aprendizagem dos educandos. Ao todo, foram cinco “Mutiaulões”, onde as diferentes disciplinas trabalharam em torno de um mesmo tema.

No 1º Mutiaulão, houve o encontro das disciplinas de Sociologia, Geografia, Literatura, História e Física, e os professores promoveram uma viagem ao longo do tempo, na qual os alunos puderam vivenciar os diferentes tipos de governos autocratas por meio da dramatização e da música.

O 2º Mutiaulão desvendou o pH sob a orientação do cientista maluco Deniz Básico e das assistentes Azul de Metileno e Clorofila. Dessa vez, o encontro ficou sob a responsabilidade dos professores de Química, Matemática e Biologia do Colégio. Além de encantar a galera, os docentes desvendaram o pH no aspecto físico, químico, biológico e matemático. O tema, sempre presente no ENEM e nos vestibulares, mas principalmente no nosso dia a dia, foi tratado de forma lúdica e acessível ao cotidiano de nossos alunos.

O 3º Mutiaulão ficou sob a responsabilidade dos professores de Língua Portuguesa e Biologia, e o tema da vez foi “Espiritualidade como base para o desenvolvimento sustentável”. Na oportunidade, os estudantes do ensino médio puderam fazer uma reflexão sobre a existência dos seres humanos, nossa responsabilidade com a natureza e com as futuras gerações.

O 4º encontro foi em parceria com um pré-vestibular de nossa cidade, e o assunto abordado foi “Atualidades”.

O último encontro, que encerrará esse projeto, envolverá as disciplinas de Língua Portuguesa, Geografia, Sociologia e História. Serão apresentados temas diversos que estarão presentes nas avaliações que os nossos jovens em breve enfrentarão.

Por meio dessa atividade, podemos vivenciar, na prática, a importância de trabalhar de forma diferenciada com os nossos jovens.

A seguir, fotos e relatos que mostram a alegria dos educandos e dos educadores em fazer parte desse Colégio, que vem buscando o rompimento com a forma tradicional de educar.

 

Depoimentos de alunos:

Aluna A.J. F (2º ano)

“O Mutiaulão nos proporciona vários conhecimentos de forma divertida e engraçada. Com ele, aprendemos muitas coisas que jamais pensei que existissem! Eu me divirto muito com as aulas!”

Aluno C. E. C. (1º ano)

“Os Mutiaulões são dez!”

 

Referências:

FAZENDA. Ivani.Práticas Interdisciplinares na Escola. São Paulo: Cortez, 1993.

Mª Ariane Pegoraro Nuncio, autora deste texto, é Coordenadora Pedagógica do Colégio Mutirão Bento. Ela é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade de Caxias do Sul (UCS); Especialista em Educação Inclusiva pelo Centro Universitário Metodista (IPA-RS); Especialista em Supervisão Escolar pela Faculdade Estadual de Educação Ciências e Letras de Paranavaí (FAFIPA) e Mestre em Educação-Ciências e Matemática, pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).

 

 

Meu filho não consegue aprender na escola. E agora, o que fazer?

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*Por Daiane Bandeira de Assunção Marin

No âmbito escolar muitas são as “queixas” dos pais sobre o processo de aprendizagem dos filhos. As maiores frustrações ocorrem quando os estudantes não conseguem aprender o “conteúdo” exposto na escola, e então começam as perturbações que cercam as famílias, e os questionamentos de práxis: Por que meu filho não aprende? Será que tem algum problema ou doença? Vamos levá-lo ao médico? Talvez ele resolva com um remédio…

Mas afinal, porque muitos indivíduos não conseguem aprender ou compreender o que o professor está tentando ensinar?

Esta questão abrange um campo da educação e saúde pouco conhecida, mas que vem sendo exercida desde a década de 70 no Brasil, chamada Psicopedagogia. Seu profissional é o psicopedagogo, que pode auxiliar nas respostas as perguntas mencionadas no início do texto.

Podemos definir Psicopedagogia de acordo com o Código de Ética do Psicopedagogo, Capítulo I Artigo 1º: “A Psicopedagogia é um campo de atuação em Educação e Saúde que se ocupa do processo de aprendizagem considerando o sujeito, a família, a escola, a sociedade e o contexto sócio-histórico, utilizando procedimentos próprios, fundamentados em diferentes referenciais teóricos.”

Essa área da saúde e educação é interdisciplinar, ou seja, precisa atuar e interagir juntamente com outras áreas e seus profissionais: neurologistas, médicos, psicólogos, professores, pedagogos, fonoaudiólogos, entre outros. E claro, em primeiro lugar interagir diretamente com a escola. Em conjunto pode-se obter um resultado relevante junto ao individuo.

Bossa pode nos definir melhor a psicopedagogia: “É uma nova área de atuação profissional que busca uma identidade, e que requer uma formação de nível interdisciplinar, o que já é sugerido no próprio termo Psicopedagogia”. (Bossa, 1995, p.31).

O objeto de estudo pode ter dois enfoques, preventivo e terapêutico.  O primeiro tem como objeto de estudo o ser humano em processo de desenvolvimento está sempre em processo constante de construção de conhecimento. O segundo realiza a análise e tratamento nas dificuldades de aprendizagem do individuo. Normalmente, não generalizando, os pais, ao se depararem com as dificuldades de aprendizagem dos seus filhos, podem seguir duas linhas de pensamento: contratar todos os profissionais possíveis da área da saúde para que esses possam achar uma solução para o “problema” de seus filhos ou então simplesmente culpar a instituição de ensino na qual seu filho está inserido, por não ter uma metodologia de ensino adequada e competente.

Entendemos as aflições dos pais, mas antes de “culpar” alguém pelo baixo desenvolvimento de aprendizagem dos nossos filhos, precisamos entender e compreender o que ocasiona de fato essa dificuldade no aprendizado.

Como citado acima, a psicopedagogia tem por objetivo analisar, ou seja, observar e compreender algo que vai muito além de um olhar apenas ou de julgamento precipitado. A psicopedagogia analisa o que está implícito.  O psicopedagogo deve “garimpar” as informações no ser humano, buscar entender a relação do aprendiz com a aprendizagem, pesquisar o seu estilo cognitivo. Afinal, somos seres que aprendemos, temos significações inconscientes. Bossa nos explica com clareza o papel do diagnóstico feito pelos profissionais: “O diagnóstico psicopedagógico é um processo, um contínuo sempre revisável, onde a intervenção do psicopedagogo inicia, segundo vimos afirmando, numa atitude investigadora, até a intervenção. É preciso observar que esta atitude investigadora, de fato, prossegue durante todo o trabalho, na própria intervenção, com o objetivo de observação ou acompanhamento da evolução do sujeito.”( Bossa, 1994 p. 74)

Outro aspecto bastante importante no processo de aprendizagem do individuo é compreender que seu primeiro vínculo afetivo é a família, e esta tem um papel importante e primordial na educação e aprendizagem da criança. Portanto, em alguns casos o “fracasso” escolar pode sim estar relacionado com o vínculo familiar. Souza nos define isso: “[…] fatores da vida psíquica da criança podem atrapalhar o bom desenvolvimento dos processos cognitivos, e sua relação com a aquisição de conhecimentos e com a família, na medida em que atitudes parentais influenciam sobremaneira a relação da criança com o conhecimento.”( Souza, 1995, p.58)

Portanto, para responder a questão que usei como título dessa publicação veja que vários aspectos devem ser analisados, e que hoje o psicopedagogo, é essencial no processo de aprendizagem dos alunos com dificuldades.

Não podemos apenas como docente e instituição definir que o aluno é um “problema” sem ao menos entender e analisar qual o gerador desse problema, e a partir disso solucionar.

Para conhecimento, no momento o Projeto de Lei 3124/97 do Deputado Federal Barbosa Neto, busca regulamentar a profissão de Psicopedagogo, tendo em vista que o trabalho de outras e da atual gestão da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia), tem amparo legal no Código Brasileiro de Ocupação. Isto quer dizer que já existe a ocupação de Psicopedagogo, porém, não é suficiente. Faz-se necessário que esta profissão seja regulamentada.

Professora Daiane Bandeira Assunção Marin. Graduada com Licenciatura Plena em Letras pela Universidade de Caxias do Sul em 2010. Professora e tutora na Instituição de Ensino Mutirão, atualmente aluna da pós graduação em Psicopedagogia pela Universidade Caxias do Sul – CARVI Bento Gonçalves. 

Referências

BOSSA, Nádia. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994.

BRASIL. Projeto de Lei 10.891. Disponível em http://www.psicopedagogiaonline.com.br. Acesso em 25 de julho de 2005.

SOUZA, Audrey Setton Lopes. Pensando a inibição intelectual: perspectiva psicanalítica e proposta diagnóstica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995.

 

 

 

O ensino de Língua Portuguesa

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*Por Alessandra Pozzer

O ensino de Língua Portuguesa vem sofrendo mudanças há alguns anos. Nessas transições, a gramática normativa foi deixada de lado para abrir espaço para o estudo dos usos da língua a partir do texto. Como bem colocam os Parâmetros Curriculares Nacionais e os Referenciais Curriculares do Rio Grande do Sul, a língua é a representação da cultura e viabiliza a expressividade. É por esse motivo que o Português e a Literatura são trabalhados em uma mesma disciplina no Ensino Fundamental.

Dessa forma, os professores de Língua Portuguesa utilizam o texto para direcionar seu trabalho e, a partir dele, analisar os usos da língua. É por esse motivo que Antunes (2010, p. 45) defende que, na análise de textos, tudo deve estar relacionado ao entendimento global do que é dito. Os estudos sobre os usos da língua devem partir do sentido do texto, por isso devemos nos perguntar: no que os recursos gramaticais e sintáticos contribuem para o sentido do texto?

Antunes (2010, p. 46) ainda coloca que o ensino de Português deve centrar-se na análise de textos e não em frases soltas, nas quais não cabem os princípios de funcionamentos da língua. É preciso levar em consideração o papel que a frase desempenha no texto, no que ela contribui para a compreensão do que está sendo dito, e perceber que ela pertence a um contexto comunicativo, não sendo possível isolá-la para estudo.

Para Antunes (2010, p. 47), quando falamos, ouvimos, lemos ou escrevemos, não produzimos frases soltas. Elas fazem parte de um contexto e, por isso, a análise de frases é descartada pelo ensino de língua, e a importância de se trabalhar com textos cresce cada vez mais. Deste modo, se o aluno trabalhar com frases soltas, ele não desenvolverá sua capacidade de produzir um texto com sentido ou coerência, menos ainda ampliará sua capacidade de entender textos de diferentes gêneros, sejam eles simples ou complexos.

Assim, as aulas de português devem girar em torno da análise de textos, que permitem a construção de modelos que evidenciam como os textos são constituídos e funcionam. Conforme Antunes (2010, p.49), conhecer esses modelos é essencial para a ampliação das competências comunicativas, já que nos comunicamos somente através de textos. As palavras existem em função do sujeito que faz uso delas, que pode produzir ilimitados enunciados. No texto, é isso que deve ser analisado e os alunos são levados a tomar consciência das inúmeras possibilidades que a língua oferece.

Antunes (2010, p. 50-52) aponta as seguintes finalidades para a análise dos textos nas aulas de Língua Portuguesa: promover o desenvolvimento de diferentes competências comunicativas; ampliar as capacidades de compreensão; desenvolver a capacidade de perceber as propriedades, as estratégias, os meios, os recursos, os efeitos, enfim, as regularidades implicadas no funcionamento da língua; desenvolver a capacidade de perceber, de enxergar, de identificar os fenômenos que ocorrem no texto; entender melhor certos aspectos dos processos cognitivos, linguísticos, textuais e pragmáticos envolvidos em nossas interações verbais.

Uma das maneiras de suscitar esses conhecimentos em nossos alunos é através dos questionamentos sobre o texto, nos quais é necessário explorar certos pontos que contribuirão para uma melhor compreensão do que está sendo dito e para que os estudantes percebam as possibilidades da língua.

Ferrarezi (2008, 165-210) aponta vários tópicos que estão presentes nas interações verbais, sejam elas orais ou escritas. Um deles é a polissemia, ou seja, a capacidade de um mesmo sinal gráfico assumir diferentes sentidos, aumentando suas possibilidades de uso. Esse sinal irá variar de acordo com o contexto e o cenário em que são empregados. Há também os sentidos que vão além do que foi abertamente dito, os chamados implícitos. Em uma análise, precisamos perceber os sentidos implícitos, que podem ser simples, dados como insinuações, ou mais complexos, nos quais são necessárias informações do cenário e o nosso conhecimento cultural para interpretá-los de acordo com o objetivo da pessoa que o proferiu.

Outro elemento apontado pelo autor é a ambiguidade, que é a possibilidade de um mesmo falante atribuir mais de um sentido a uma mesma sentença em um mesmo contexto e cenário. A negação é um tópico que vai além dos advérbios de negação. Ela pode ser sutil em um texto, definindo seu sentido. Como exemplo temos pedacinhos de palavras ou palavras inteiras com sentido de negação, certos tipos de afirmação, a ironia, alguns exageros e até o silêncio podem significar a negação de algo.

Ferrarezi afirma que nos clichês consta o registro do desenvolvimento cultural de uma região. É preciso conhecer a cultura onde determinada expressão idiomática ou frase feita é usada para poder utilizá-la com seu real sentido, ou compreendê-la quando aparecer em um texto. Como último tópico apontado pelo autor tem-se a metáfora, isto é, a utilização de uma expressão que apresenta um sentido costumeiro com outro sentido diverso daquele comumente conhecido. Tem como função suprir a necessidade de expressar sentidos para os quais não há expressões específicas na língua.

Para que o aluno perceba todas essas possibilidades da língua e muitas outras, se torna necessário compreender a análise de textos, como esclarece Antunes (2010, p.49):

[…] analisar textos é procurar descobrir, entre outros pontos, seu esquema de composição; sua orientação temática, seu propósito comunicativo; é procurar identificar suas partes constituintes; as funções pretendidas para cada uma delas, as relações que guardam entre si e com elementos da situação, os efeitos de sentido decorrentes de escolhas lexicais e de recursos sintáticos. É procurar descobrir o conjunto de suas regularidades, daquilo que costuma ocorrer na sua produção e circulação, apesar da imensa variedade de gêneros, propósitos, formatos, suportes em que eles podem acontecer.

Antunes (2010, p. 52) afirma que a atualidade exige pessoas capazes de atuar socialmente, com competência para a desenvoltura e que saibam se expressar com clareza e consistência nas mais variadas situações sociais. Isso mostra porque a escola e, principalmente, as aulas de Língua Portuguesa, devem reformular suas práticas, realizando-as a partir de textos e analisando-os à luz das novas teorias. Dessa forma, a metodologia irá mudar e o ensino de Português atingirá o objetivo que se espera dele: preparar o indivíduo para a efetiva inserção e participação na sociedade atual.

*Professora Alessandra Pozzer. Graduada em Letras pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) e pós-graduada em Metodologia e Ensino da Língua Portuguesa pela Uninter. Professora do Mutirão Farroupilha e rede estadual de ensino. 

Referências

ANTUNES, Irandé. Análise de textos: fundamentos e práticas. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do Ensino fundamental- Língua Portuguesa. Brasília: Ministério da Educação, 1998.

FERRAREZI JUNIOR, Celso. Semântica para a educação básica. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

FONTANA, N. M.; PAVIANI, N. M. S.; PRESSANTO, I. M. P. Práticas de linguagem: gêneros discursivos e interação. Caxias do Sul: Educs, 2009.

Rio Grande do Sul. Secretaria de Estado da Educação. Departamento Pedagógico. Referenciais Curriculares do Estado do Rio Grande do Sul: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias – Língua Portuguesa, Literatura, Língua Estrangeira Moderna (Inglês e Espanhol). Porto Alegre: SE/DP, 2009. v. 1.

A leitura da criança: principal ferramenta social

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                                             *Por Márcia Elisa Soprana Silvestrin

A prática da leitura sempre nos possibilitou maior conhecimento de mundo e capacidade de garantir-nos satisfação e entendimento. Ao nascermos, já constituímos uma visão interpretativa da linguagem, pois buscamos entender os gestos e as imagens nomeados por nossos pais.

Segundo Richard Bamberger (2004, p .31), “a prontidão para a leitura é determinada em grande parte pela atmosfera literária e linguística reinante na casa da criança”. A linha do tempo é flexível, já que a tendência do ser humano é acumular vivências, interpretando-as e relacionando-as aos acontecimentos diários. A leitura de mundo é sistematizada pela família e concretizada pela escola já nos primeiros anos da educação infantil. Além disso, essa leitura se mantém por toda a vida.

Vivemos em uma sociedade letrada, onde não lemos e escrevemos apenas, mas falamos. Dessa forma, as pessoas devem demonstrar seu potencial no desenvolvimento não só da escrita como também da oralidade. É preciso, para que isso ocorra, revigorar a língua escrita, mas isso só será possível através de uma leitura direcionada, uma leitura não apenas de situações evidenciadas, mas uma leitura contextualizada, com adequação vocabular. O professor fará a ponte, o direcionamento, entre o aluno e o mundo vislumbrado e escondido por detrás das palavras. Nossos alunos precisam relacionar os textos que leem às vivências de seu dia a dia, pois, dessa forma, terminarão o desenvolvimento das suas competências básicas.

Magda Soares (1995, p. 48) afirma que “a aproximação do professor-aluno pelas classes populares significa a conquista de instrumentos imprescindíveis não só na elaboração de sua própria cultura, mas também na transformação de suas condições sociais”. O contato com a leitura e a escrita deve ser sempre significativo e prazeroso, pois busca, no mundo mágico da literatura, a ampliação do universo significativo do leitor, instrumentalizando-o para o exercício da cidadania. Como todo ser humano, também a criança tem suas preferências no que tange à modalidade literária. Dentre essas escolhas, evidenciam-se a ficção, a aventura e, principalmente, o conto de fadas.

Os textos que lemos também são diferentes e oferecem diferentes possibilidades para a transmissão da informação escrita. Essas informações podem ser encontradas nas diferentes modalidades literárias, em um relatório, em um conto, pois o conteúdo muda, restringindo a forma com que se organizam as informações e a escrita. A leitura sempre envolve a compreensão do texto escrito, sua forma, seu conteúdo e, principalmente, seu leitor, com suas expectativas e conhecimentos prévios. O leitor deve apropriar-se de habilidades de decodificação, ter objetivos, esclarecer ideias e desenvolver experiências, para evidenciar ou rejeitar inferências que o ajudarão nesse processo.

“Ler sempre foi sinônimo de prazer” desde as mais antigas civilizações. Prova disso é que, na antiga Grécia, os homens livres recebiam esse privilégio e eram respeitados pelo “saber” da sociedade.

Hoje em dia, a leitura se tornou uma ferramenta essencial e indispensável à vida em sociedade e, por isso, vem sendo discutida por vários autores e pesquisadores, levando muitos profissionais da educação a se especializarem cada vez mais na área. Parece inegável a importância da leitura e do saber ler para que os cidadãos se integrem plenamente à vida cotidiana em termos profissionais e, também, ao lazer.

À medida que o sujeito lê uma obra literária, ele vai construindo imagens que se interligam e se modificam, apoiando-se pelas pistas verbais fornecidas pelo escritor e pelos conteúdos de sua consciência, não só intelectuais, mas também emocionais trazidos pela sua experiência de vida. Para Paulo Freire (1987, p.5)

[…] a pessoa pode ler através da vasta barreira que separa o real da imaginação, pois só assim ela terá interação com os diferentes textos, compreendendo o que está escrito, e as palavras escondidas por detrás desta leitura se desvendarão. Essa relação se efetivará com outras leituras anteriormente feitas (leitura de mundo).

O grupo social não é simplesmente um todo homogêneo. Nele, habitam vontades, saberes e posicionamentos diferenciados, mas convergentes, que geram as possibilidades de relações internas e com outros grupos. Através das trocas linguísticas, o indivíduo se certifica de seu conhecimento do mundo e dos outros homens, assim como de si mesmo, ao mesmo tempo em que participa das transformações sociais.

Segundo Pretti (1974, p. 07), “ a língua é o suporte de uma dinâmica social”, ou seja, é o principal código utilizado pelo homem em sua vida.

Tendo isso em vista, pode-se afirmar que a leitura não pode e nem deve ser vista dissociada de um processo que envolve a família, a escola e o professor. À família, cabe o papel de incentivadora da criança, já que estará presente para acompanhar todo o processo evolutivo escolar dela. Na escola, a criança terá seu mundo transformado, pois é na escola que as experiências se concretizarão. O professor, conhecedor de sua importância, direcionará esse processo de compreensão e organização do texto, tendo em vista que o aprender não é um ato final, mas sim um exercício constante de renovação.

O texto, portanto, deve ser aliado de seu leitor, e é na criança que ele frutificará, pois é a criança que possui a sensibilidade de ouvir, compreender, produzir e estabelecer relações que farão a diferença para o resto de sua vida. No processo de desenvolvimento do aluno na escola, é evidente que a leitura estimulada desde muito cedo contribui, de forma muito visível, para a organização de textos coerentes, tanto em relação ao significante quanto em relação ao significado.

* Professora Márcia Elisa Soprana Silvestrin. Licenciada em Língua Portuguesa e Literatura pela UCS; Especialista em Literatura Infanto-Juvenil pela UCS; Especialista em Metodologia do Ensino pelo CESF-Farroupilha. Professora de Língua Portuguesa, Literatura e Sociologia do Colégio Mutirão Farroupilha e Professora das Linguagens, Códigos e suas Tecnologias na Rede Estadual de Ensino de Farroupilha.

Referências:

BAMBERGER, Richard. Como incentivar o hábito da leitura. Ed Ática, 2004.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler:um tema em três artigos.44ª. Ed.São Paulo:Cortez,1982.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros.12ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

 

 

 

 

O aprender e o ensinar

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*Por ¹  Andréia Lovatto

² Fabiane Menegotto

A antiga ideia de que “a Educação prepara para a vida” é substituída por “a Educação é vida” e a escola deve ser um laboratório e não um auditório.

Como os professores devem agir com seus alunos diante dos desafios encontrados em diversos espaços educativos? Não existe fórmula mágica, não  existem receitas, e sim, atitudes!

 Ser e estar congruente

Falar verdadeiramente, ser autêntico com o aluno, expor sentimentos, desejos e medos. Dessa forma o professor passa a ser visto pelo aluno como alguém genuíno, passível de errar, com sentimentos reais, e assim, há grande probabilidade de o aluno mudar atitudes e também tornar-se autêntico em seu comportamento.

Conforme pondera Rogers (1985), o professor que assume atitudes e compartilha sua autoridade pode conduzir a turma a um clima propício à aprendizagem significativa.

 Aceitação ou consideração positiva

Aceitar o sujeito como ele é, respeitá-lo e valorizar aquilo que traz como experiência. Substituir o clima autoritário por um clima de confiança, de segurança, sem deixar que a autoridade do professor desapareça.

 Empatia

Quando o professor tem a capacidade de compreender internamente as reações do estudante, tem uma consciência sensível da maneira pela qual o processo de educação e aprendizagem se apresenta ao estudante, e assim, mais uma vez, aumentam as probabilidades de uma aprendizagem significativa.

Motivação – Ação e entusiasmo diante da aprendizagem

É o processo que mobiliza o organismo para a ação, a partir de uma relação estabelecida entre o ambiente, a necessidade e o objeto de satisfação. Motivar passa a ser, também, um trabalho de atrair, encantar, seduzir o aluno, utilizando o que é do interesse dele, como forma de engajá-lo no ensino. Nas situações escolares, o interesse é indispensável para que o aluno tenha motivos de ação no sentido de apropriar-se do conhecimento.

Hoje, mais do que nunca, torna-se tarefa primordial do professor conhecer, aceitar e privilegiar os interesses de seus alunos, segundo Paulo Freire (1999): “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa.”

Para que a aprendizagem seja significativa ao aluno é preciso levar em consideração a sua experiência, relacionando o conteúdo trabalhado em sala de aula com seu cotidiano, proporcionando um desenvolvimento não só intelectual, mas também emocional, para que o educando sinta-se motivado a buscar novos conhecimentos.

O papel do educador é ser um facilitador, tornando o aluno livre e interessado nas discussões e reflexões da sociedade. Estimulando o seu senso crítico e de agregação de valores dentro do processo de construção da aprendizagem.

¹  Professora Andréia Lovatto – Licenciada em Matemática e Física – UCS (Caxias do Sul/RS), Especialista em Educação Permanente – Ênfase em Apoio Pedagógico – UCS (Caxias do Sul). Professora de Matemática e Física do Colégio Mutirão Farroupilha.

² Professora Fabiane Menegotto – Licenciada em Ciências Biológicas – UCS (Caxias do Sul/RS). Professora de Biologia e Química do Colégio Mutirão Farroupilha;

Referências

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 23ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1985.

Uma Proposta Engajadora

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*Por Rafael Tiago Debastiani

A constatação das mudanças no mundo em que vivemos e a velocidade em que elas ocorrem não assombra nem mesmo as crianças no momento em que escrevo este texto. Por não indagarmos, não refletirmos, talvez não damos a devida dimensão dos envolvidos e dos processos que acusam essas mudanças.

O processo ensino e aprendizagem na educação atravessa momentos de muitas mudanças. A existência de metodologias antigas utilizadas em salas de aula hoje, mostram-se ultrapassadas pelas novas exigências mundiais. O uso cada vez maior de tecnologias que disseminam uma vasta gama de informações sobre quase tudo que se possa imaginar redistribui novos papeis de ação que se envolvem na relação ensino e aprendizagem, colocando o professor como um mediador na caminhada do aprendizado e não mais como detentor e provedor de informações para gerar conhecimento.

Nesta extrema rapidez com que a sociedade se apodera e faz uso de meios tecnológicos ressurgem as metodologias ou abordagens ativas para aproximar tanto o aluno quanto o professor de um conteúdo mais palpável ao mesmo tempo que dinâmico, tornando os assuntos significativos e passiveis de comparação à realidade vivida pelos alunos. Nas metodologias ativas tanto professor quanto aluno são ativos na produção e responsáveis pela construção do conhecimento. O professor passa a ter um papel de designer de problemas e desafios que visam transformar o aluno em um investigador ou pesquisador em meio às inúmeras fontes e tecnologias disponíveis, aproximando os conteúdos de sala de aula da realidade vivida pelo aluno e por que não, de uma realidade futura.

Neste contexto de informação, tecnologia e educação é importante que o professor agora no papel de tutor de seus alunos encontre a melhor forma para que os mesmos possam aprender, equilibrando informações, atividades e desafios sempre focando na significância dos conteúdos, ou seja, da aproximação com a vida.

Alguns componentes são fundamentais para o sucesso das práticas das metodologias ativas dentro e fora da sala de aula: a criação de desafios, atividades, jogos que realmente tragam as competências necessárias para cada etapa, que solicitem informações pertinentes, que ofereçam recompensas estimulantes, que combinem processos de avaliação individual com participação significativa em grupos, que se inserem em plataformas digitais, que reconheçam o quanto o aluno aprende sozinho e em grupo.

Professores e alunos precisam chegar a elementos comuns no tocante à aprendizagem e à consciência de que precisamos afinar neste mesmo tom tem necessariamente que partir do professor, o propositor do conhecimento e o definidor do método e das técnicas a serem utilizadas.

As metodologias ativas ressurgem como peça que preenche esta lacuna que existe entre o que é ensinado em sala de aula e o que faz parte do mundo, das experiências e fenômenos vivenciados por ambos (professor-aluno) fora dela.

É preciso acreditar no aprender fazendo, de que a sala de aula é feita para testar, para errar, para acertar e para aprender. Quanto mais alunos e professores estiverem ocupados destas rotinas mais bem preparados estarão.

É preciso desejar que cada vez mais professores passem a utilizar métodos que possibilitem aos alunos significado e entendimento e não simples memorização.

É preciso investir em métodos que avaliem o desempenho dos alunos frente aos problemas de fato, dimensionando à educação a altura que ela merece, como necessidade vital para entendermos o mundo e as relações ao nosso redor. As metodologias ativas proporcionam esse significado de maneira muito evidente, satisfatória e realizadora.

  • Rafael Tiago Debastiani é licenciado em História – UCS (Caxias do Sul/RS), especialista em Metodologia do Ensino de História e Geografia – Uninter e graduando em Sociologia  e Filosofia  também pela Uninter (Polo Caxias do Sul/RS). Professor do colégio Mutirão Máster.

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