Meu filho não consegue aprender na escola. E agora, o que fazer?

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*Por Daiane Bandeira de Assunção Marin

No âmbito escolar muitas são as “queixas” dos pais sobre o processo de aprendizagem dos filhos. As maiores frustrações ocorrem quando os estudantes não conseguem aprender o “conteúdo” exposto na escola, e então começam as perturbações que cercam as famílias, e os questionamentos de práxis: Por que meu filho não aprende? Será que tem algum problema ou doença? Vamos levá-lo ao médico? Talvez ele resolva com um remédio…

Mas afinal, porque muitos indivíduos não conseguem aprender ou compreender o que o professor está tentando ensinar?

Esta questão abrange um campo da educação e saúde pouco conhecida, mas que vem sendo exercida desde a década de 70 no Brasil, chamada Psicopedagogia. Seu profissional é o psicopedagogo, que pode auxiliar nas respostas as perguntas mencionadas no início do texto.

Podemos definir Psicopedagogia de acordo com o Código de Ética do Psicopedagogo, Capítulo I Artigo 1º: “A Psicopedagogia é um campo de atuação em Educação e Saúde que se ocupa do processo de aprendizagem considerando o sujeito, a família, a escola, a sociedade e o contexto sócio-histórico, utilizando procedimentos próprios, fundamentados em diferentes referenciais teóricos.”

Essa área da saúde e educação é interdisciplinar, ou seja, precisa atuar e interagir juntamente com outras áreas e seus profissionais: neurologistas, médicos, psicólogos, professores, pedagogos, fonoaudiólogos, entre outros. E claro, em primeiro lugar interagir diretamente com a escola. Em conjunto pode-se obter um resultado relevante junto ao individuo.

Bossa pode nos definir melhor a psicopedagogia: “É uma nova área de atuação profissional que busca uma identidade, e que requer uma formação de nível interdisciplinar, o que já é sugerido no próprio termo Psicopedagogia”. (Bossa, 1995, p.31).

O objeto de estudo pode ter dois enfoques, preventivo e terapêutico.  O primeiro tem como objeto de estudo o ser humano em processo de desenvolvimento está sempre em processo constante de construção de conhecimento. O segundo realiza a análise e tratamento nas dificuldades de aprendizagem do individuo. Normalmente, não generalizando, os pais, ao se depararem com as dificuldades de aprendizagem dos seus filhos, podem seguir duas linhas de pensamento: contratar todos os profissionais possíveis da área da saúde para que esses possam achar uma solução para o “problema” de seus filhos ou então simplesmente culpar a instituição de ensino na qual seu filho está inserido, por não ter uma metodologia de ensino adequada e competente.

Entendemos as aflições dos pais, mas antes de “culpar” alguém pelo baixo desenvolvimento de aprendizagem dos nossos filhos, precisamos entender e compreender o que ocasiona de fato essa dificuldade no aprendizado.

Como citado acima, a psicopedagogia tem por objetivo analisar, ou seja, observar e compreender algo que vai muito além de um olhar apenas ou de julgamento precipitado. A psicopedagogia analisa o que está implícito.  O psicopedagogo deve “garimpar” as informações no ser humano, buscar entender a relação do aprendiz com a aprendizagem, pesquisar o seu estilo cognitivo. Afinal, somos seres que aprendemos, temos significações inconscientes. Bossa nos explica com clareza o papel do diagnóstico feito pelos profissionais: “O diagnóstico psicopedagógico é um processo, um contínuo sempre revisável, onde a intervenção do psicopedagogo inicia, segundo vimos afirmando, numa atitude investigadora, até a intervenção. É preciso observar que esta atitude investigadora, de fato, prossegue durante todo o trabalho, na própria intervenção, com o objetivo de observação ou acompanhamento da evolução do sujeito.”( Bossa, 1994 p. 74)

Outro aspecto bastante importante no processo de aprendizagem do individuo é compreender que seu primeiro vínculo afetivo é a família, e esta tem um papel importante e primordial na educação e aprendizagem da criança. Portanto, em alguns casos o “fracasso” escolar pode sim estar relacionado com o vínculo familiar. Souza nos define isso: “[…] fatores da vida psíquica da criança podem atrapalhar o bom desenvolvimento dos processos cognitivos, e sua relação com a aquisição de conhecimentos e com a família, na medida em que atitudes parentais influenciam sobremaneira a relação da criança com o conhecimento.”( Souza, 1995, p.58)

Portanto, para responder a questão que usei como título dessa publicação veja que vários aspectos devem ser analisados, e que hoje o psicopedagogo, é essencial no processo de aprendizagem dos alunos com dificuldades.

Não podemos apenas como docente e instituição definir que o aluno é um “problema” sem ao menos entender e analisar qual o gerador desse problema, e a partir disso solucionar.

Para conhecimento, no momento o Projeto de Lei 3124/97 do Deputado Federal Barbosa Neto, busca regulamentar a profissão de Psicopedagogo, tendo em vista que o trabalho de outras e da atual gestão da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia), tem amparo legal no Código Brasileiro de Ocupação. Isto quer dizer que já existe a ocupação de Psicopedagogo, porém, não é suficiente. Faz-se necessário que esta profissão seja regulamentada.

Professora Daiane Bandeira Assunção Marin. Graduada com Licenciatura Plena em Letras pela Universidade de Caxias do Sul em 2010. Professora e tutora na Instituição de Ensino Mutirão, atualmente aluna da pós graduação em Psicopedagogia pela Universidade Caxias do Sul – CARVI Bento Gonçalves. 

Referências

BOSSA, Nádia. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994.

BRASIL. Projeto de Lei 10.891. Disponível em http://www.psicopedagogiaonline.com.br. Acesso em 25 de julho de 2005.

SOUZA, Audrey Setton Lopes. Pensando a inibição intelectual: perspectiva psicanalítica e proposta diagnóstica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995.

 

 

 

A leitura da criança: principal ferramenta social

Profemarcia                                           

                                             *Por Márcia Elisa Soprana Silvestrin

A prática da leitura sempre nos possibilitou maior conhecimento de mundo e capacidade de garantir-nos satisfação e entendimento. Ao nascermos, já constituímos uma visão interpretativa da linguagem, pois buscamos entender os gestos e as imagens nomeados por nossos pais.

Segundo Richard Bamberger (2004, p .31), “a prontidão para a leitura é determinada em grande parte pela atmosfera literária e linguística reinante na casa da criança”. A linha do tempo é flexível, já que a tendência do ser humano é acumular vivências, interpretando-as e relacionando-as aos acontecimentos diários. A leitura de mundo é sistematizada pela família e concretizada pela escola já nos primeiros anos da educação infantil. Além disso, essa leitura se mantém por toda a vida.

Vivemos em uma sociedade letrada, onde não lemos e escrevemos apenas, mas falamos. Dessa forma, as pessoas devem demonstrar seu potencial no desenvolvimento não só da escrita como também da oralidade. É preciso, para que isso ocorra, revigorar a língua escrita, mas isso só será possível através de uma leitura direcionada, uma leitura não apenas de situações evidenciadas, mas uma leitura contextualizada, com adequação vocabular. O professor fará a ponte, o direcionamento, entre o aluno e o mundo vislumbrado e escondido por detrás das palavras. Nossos alunos precisam relacionar os textos que leem às vivências de seu dia a dia, pois, dessa forma, terminarão o desenvolvimento das suas competências básicas.

Magda Soares (1995, p. 48) afirma que “a aproximação do professor-aluno pelas classes populares significa a conquista de instrumentos imprescindíveis não só na elaboração de sua própria cultura, mas também na transformação de suas condições sociais”. O contato com a leitura e a escrita deve ser sempre significativo e prazeroso, pois busca, no mundo mágico da literatura, a ampliação do universo significativo do leitor, instrumentalizando-o para o exercício da cidadania. Como todo ser humano, também a criança tem suas preferências no que tange à modalidade literária. Dentre essas escolhas, evidenciam-se a ficção, a aventura e, principalmente, o conto de fadas.

Os textos que lemos também são diferentes e oferecem diferentes possibilidades para a transmissão da informação escrita. Essas informações podem ser encontradas nas diferentes modalidades literárias, em um relatório, em um conto, pois o conteúdo muda, restringindo a forma com que se organizam as informações e a escrita. A leitura sempre envolve a compreensão do texto escrito, sua forma, seu conteúdo e, principalmente, seu leitor, com suas expectativas e conhecimentos prévios. O leitor deve apropriar-se de habilidades de decodificação, ter objetivos, esclarecer ideias e desenvolver experiências, para evidenciar ou rejeitar inferências que o ajudarão nesse processo.

“Ler sempre foi sinônimo de prazer” desde as mais antigas civilizações. Prova disso é que, na antiga Grécia, os homens livres recebiam esse privilégio e eram respeitados pelo “saber” da sociedade.

Hoje em dia, a leitura se tornou uma ferramenta essencial e indispensável à vida em sociedade e, por isso, vem sendo discutida por vários autores e pesquisadores, levando muitos profissionais da educação a se especializarem cada vez mais na área. Parece inegável a importância da leitura e do saber ler para que os cidadãos se integrem plenamente à vida cotidiana em termos profissionais e, também, ao lazer.

À medida que o sujeito lê uma obra literária, ele vai construindo imagens que se interligam e se modificam, apoiando-se pelas pistas verbais fornecidas pelo escritor e pelos conteúdos de sua consciência, não só intelectuais, mas também emocionais trazidos pela sua experiência de vida. Para Paulo Freire (1987, p.5)

[…] a pessoa pode ler através da vasta barreira que separa o real da imaginação, pois só assim ela terá interação com os diferentes textos, compreendendo o que está escrito, e as palavras escondidas por detrás desta leitura se desvendarão. Essa relação se efetivará com outras leituras anteriormente feitas (leitura de mundo).

O grupo social não é simplesmente um todo homogêneo. Nele, habitam vontades, saberes e posicionamentos diferenciados, mas convergentes, que geram as possibilidades de relações internas e com outros grupos. Através das trocas linguísticas, o indivíduo se certifica de seu conhecimento do mundo e dos outros homens, assim como de si mesmo, ao mesmo tempo em que participa das transformações sociais.

Segundo Pretti (1974, p. 07), “ a língua é o suporte de uma dinâmica social”, ou seja, é o principal código utilizado pelo homem em sua vida.

Tendo isso em vista, pode-se afirmar que a leitura não pode e nem deve ser vista dissociada de um processo que envolve a família, a escola e o professor. À família, cabe o papel de incentivadora da criança, já que estará presente para acompanhar todo o processo evolutivo escolar dela. Na escola, a criança terá seu mundo transformado, pois é na escola que as experiências se concretizarão. O professor, conhecedor de sua importância, direcionará esse processo de compreensão e organização do texto, tendo em vista que o aprender não é um ato final, mas sim um exercício constante de renovação.

O texto, portanto, deve ser aliado de seu leitor, e é na criança que ele frutificará, pois é a criança que possui a sensibilidade de ouvir, compreender, produzir e estabelecer relações que farão a diferença para o resto de sua vida. No processo de desenvolvimento do aluno na escola, é evidente que a leitura estimulada desde muito cedo contribui, de forma muito visível, para a organização de textos coerentes, tanto em relação ao significante quanto em relação ao significado.

* Professora Márcia Elisa Soprana Silvestrin. Licenciada em Língua Portuguesa e Literatura pela UCS; Especialista em Literatura Infanto-Juvenil pela UCS; Especialista em Metodologia do Ensino pelo CESF-Farroupilha. Professora de Língua Portuguesa, Literatura e Sociologia do Colégio Mutirão Farroupilha e Professora das Linguagens, Códigos e suas Tecnologias na Rede Estadual de Ensino de Farroupilha.

Referências:

BAMBERGER, Richard. Como incentivar o hábito da leitura. Ed Ática, 2004.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler:um tema em três artigos.44ª. Ed.São Paulo:Cortez,1982.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros.12ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.