Mutiaulão? O que é isso?

Por Mª Ariane Pegoraro Nuncio

Os Multiaulões têm sido um dos diferenciais do Colégio Mutirão Objetivo de Bento Gonçalves. Desde o mês de junho de 2017, estamos desenvolvendo aulas interdisciplinares em que os educadores do Colégio, em parceria com outras instituições, têm trabalhado os mais diversos temas e assuntos presentes nos vestibulares e no ENEM. Esse mesmo projeto está sendo oferecido, também, para as três séries do Ensino Médio.

A interdisciplinaridade não é um tema novo, estando no Brasil desde a Lei nº 5.692/71, mais fortemente com a Lei de Diretrizes e Bases para a educação, a Lei nº 9.394/96. Os próprios Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) já apresentam essa estratégia como algo possível de ser trabalhado nas escolas; mas, infelizmente, no ensino da maioria das escolas, o conhecimento ainda é “individualizado e compartimentalizado como se fossem gavetas”.

Fazenda (1993) aponta que “os currículos disciplinares levam o aluno ao acúmulo de informações. Sua superação exige uma mudança de atitude perante o problema do conhecimento”.

Para esse mesmo autor “o pensar interdisciplinar tenta, através do diálogo com outras formas de conhecimento, interpenetrar pelos diversos campos do saber”.

Diante dessa realidade, o nosso Colégio vem rompendo com o método tradicional, que pouco contribui para a aprendizagem dos educandos. Ao todo, foram cinco “Mutiaulões”, onde as diferentes disciplinas trabalharam em torno de um mesmo tema.

No 1º Mutiaulão, houve o encontro das disciplinas de Sociologia, Geografia, Literatura, História e Física, e os professores promoveram uma viagem ao longo do tempo, na qual os alunos puderam vivenciar os diferentes tipos de governos autocratas por meio da dramatização e da música.

O 2º Mutiaulão desvendou o pH sob a orientação do cientista maluco Deniz Básico e das assistentes Azul de Metileno e Clorofila. Dessa vez, o encontro ficou sob a responsabilidade dos professores de Química, Matemática e Biologia do Colégio. Além de encantar a galera, os docentes desvendaram o pH no aspecto físico, químico, biológico e matemático. O tema, sempre presente no ENEM e nos vestibulares, mas principalmente no nosso dia a dia, foi tratado de forma lúdica e acessível ao cotidiano de nossos alunos.

O 3º Mutiaulão ficou sob a responsabilidade dos professores de Língua Portuguesa e Biologia, e o tema da vez foi “Espiritualidade como base para o desenvolvimento sustentável”. Na oportunidade, os estudantes do ensino médio puderam fazer uma reflexão sobre a existência dos seres humanos, nossa responsabilidade com a natureza e com as futuras gerações.

O 4º encontro foi em parceria com um pré-vestibular de nossa cidade, e o assunto abordado foi “Atualidades”.

O último encontro, que encerrará esse projeto, envolverá as disciplinas de Língua Portuguesa, Geografia, Sociologia e História. Serão apresentados temas diversos que estarão presentes nas avaliações que os nossos jovens em breve enfrentarão.

Por meio dessa atividade, podemos vivenciar, na prática, a importância de trabalhar de forma diferenciada com os nossos jovens.

A seguir, fotos e relatos que mostram a alegria dos educandos e dos educadores em fazer parte desse Colégio, que vem buscando o rompimento com a forma tradicional de educar.

 

Depoimentos de alunos:

Aluna A.J. F (2º ano)

“O Mutiaulão nos proporciona vários conhecimentos de forma divertida e engraçada. Com ele, aprendemos muitas coisas que jamais pensei que existissem! Eu me divirto muito com as aulas!”

Aluno C. E. C. (1º ano)

“Os Mutiaulões são dez!”

 

Referências:

FAZENDA. Ivani.Práticas Interdisciplinares na Escola. São Paulo: Cortez, 1993.

Mª Ariane Pegoraro Nuncio, autora deste texto, é Coordenadora Pedagógica do Colégio Mutirão Bento. Ela é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade de Caxias do Sul (UCS); Especialista em Educação Inclusiva pelo Centro Universitário Metodista (IPA-RS); Especialista em Supervisão Escolar pela Faculdade Estadual de Educação Ciências e Letras de Paranavaí (FAFIPA) e Mestre em Educação-Ciências e Matemática, pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).

 

 

MENOS É MAIS!

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*Por Fábio de Oliveira Brondani

Seguidamente, nas aulas de Matemática, nota-se certa inquietação, por parte dos alunos, no que se refere à regra de sinais, especialmente quando se fala na regra da multiplicação e da divisão. Percebe-se que, por mais que se tente justificar o fato através de exemplos e de macetes há, ainda, certa resistência na assimilação. Diante desse fato, o objetivo deste artigo é justificar de um modo mais formal esta regra. Entretanto, antes desta “prova”, será apresentado, de maneira resumida, o contexto histórico do surgimento dos números. Por fim, serão apresentadas algumas situações onde pode-se perceber que, de fato, menos é mais.

Antes de falar nos sinais dos números, é preciso falar do surgimento deles. Basicamente, no início da história humana, esses surgiram com um único propósito: a necessidade de contar, ou seja, de atribuir valores e quantidades. Estima-se que o homem, há 500.000 anos atrás, já tinha a capacidade de contar. É claro que a representação desse processo não se dava através dos símbolos que hoje se utiliza (1, 2, 3, …). Cada povo desenvolvia o seu “sistema numérico”, que, muitas vezes, eram representações que continham desenhos, como é o caso do sistema de numeração utilizado pelo povo egípcio por volta de 3.300 a.C.. Um outro modo de contar, naquela época, era utilizando-se pedras ou sementes de milho, por exemplo. Essa técnica era muito utilizada por pastores para contar seu rebanho de animais. Tal técnica pode ser utilizada hoje para introduzir o conceito de números (quantidades) para as crianças no início do Ensino Fundamental. Os números que expressam quantidades, os quais são identificados hoje como 1, 2, 3, …, fazem parte do Conjunto dos Números Naturais.

Seguindo um pouco mais no tempo, no início do Renascimento, a expansão comercial começou a crescer de forma considerável. Sempre quando se fala em comércio, logo se pensa em lucros e prejuízos. Foi aí que surgiu a seguinte questão: “como pode-se representar numericamente lucros e prejuízos? ”. Diante desse problema, houve, então, a necessidade de encontrar uma resposta a essa pergunta, surgindo, assim, o conceito de número negativo. Esse conceito foi um grande problema para os matemáticos em geral. Gauss e o matemático francês Lazare Carnot escreveram artigos procurando entender esse conceito. Entretanto, foi somente no Século XIX que houve um melhor entendimento sobre esses números. Foi quando deixaram de pensar que os conceitos matemáticos não representavam coisas, mas, sim, relações entre as coisas. Com essa mudança de pensamento, pôde-se avançar nessa área.

A partir desse entendimento, foi possível, então, pensar em uma regra que estabelecesse os sinais dos números, conforme fosse o problema aplicado. Cabe ressaltar que, até chegarem a essa regra, muitos matemáticos perderam várias noites de sono. Estima-se que eles somente entraram em acordo e aceitaram a regra atual depois de cerca de 1.500 anos de muitos debates e estudos.

Como já foi dito aqui, das quatro regras existentes, três delas podem ser entendidas por intermédio de exemplos muito práticos. São as regras: adição/subtração de sinais iguais; adição/subtração de sinais diferentes e multiplicação/divisão de sinais diferentes. Para entendê-las, basta utilizar problemas que envolvam matemática financeira. Nesse caso, deve-se levar em conta que os valores positivos representam valores que cada um dispõe, enquanto que os valores negativos representam valores que cada pessoa deve. Utilizando esse raciocínio, que é bastante lúdico, é possível entender perfeitamente as regras citadas anteriormente. Diante disso, aqui será omitido a prova formal de tais regras.

Entretanto, a utilização de problemas financeiros para a interpretação das regras de sinais não se aplica na multiplicação/divisão de sinais iguais. Por exemplo, sabe-se que (-2) x (-3) = + 6. Se fosse possível a utilização desses problemas para resolver o sinal desta operação, haveria a seguinte situação: “uma dívida de 2, multiplicada por outra dívida de 3, dá um lucro de 6”. Impossível! Diante disso, segue a prova matemática (formal) de que menos com menos é mais.

 

Considere dois números reais A e B. Então é possível afirmar que (-A).(-B)= A.B. De fato:

(-A).(-B)=-[A.(-B)]=-[-A.B]=A.B

 

Com certeza, para quem é leigo no assunto, isso não quer dizer muita coisa. Apesar disso, as operações que foram utilizadas na demonstração do problema são conhecidas de todos. Em outras palavras, para mostrar que multiplicação/divisão de sinais iguais é um valor positivo, basta levar em conta as propriedades dos números que começaram a ser estudadas no 6º ano do Ensino Fundamental. Dentre elas: existência de elemento neutro, associatividade, distributividade, comutatividade e elemento simétrico. Essa é a forma matemática de se mostrar tal regra e que deixa tantas pessoas inquietas quando a observam.

     Dessa forma, o intuito deste artigo, além de mostrar que de fato “menos com menos dá mais”, é mostrar algo ainda maior, isto é, MENOS SEMPRE É MAIS!

Veja algumas situações em que isso ocorre:

1º) MENOS ódio MAIS amor;

2º) MENOS egoísmo MAIS caridade;

3º) MENOS desperdício MAIS recursos disponíveis;

4º) MENOS violência MAIS paz;

5º) MENOS preconceito MAIS liberdade de expressão.

Enfim, são tantos os exemplos em que se pode aplicar essa regra que se torna impossível elencar todos eles. Portanto, que essa regra, que gera muita dúvida e inquietação, possa levá-los a refletir sobre as diversas situações em que o mundo de hoje se encontra. Que cada um consiga aplicá-la no seu dia a dia, não apenas corretamente na Matemática, mas também enquanto pessoas de bem. Quando todos colocarem em prática o que essa regra diz, o mundo se tornará como a ciência Matemática é, ou seja, o mundo tornar-se-á perfeito. Dessa forma, as pessoas perceberão e entenderão, através da prática, que menos é mais!

Profº Fábio de Oliveira Brondani – Licenciado em Matemática pela Universidade Federal de Santa Maria UFSM, Especialista em Matemática Aplicada e Computacional pela UCS e Mestre em Matemática pela Universidade Federal de Itajubá – Área de Concentração: Equações Diferenciais Ordinárias. Docente no Colégio Mutirão Máster onde ministra as disciplinas de Matemática e Física.

Fontes:

http://www.mat.ufrgs.br/~vclotilde/disciplinas/html/historia_numeros.pdf

http://www.mat.ufrgs.br/~vclotilde/disciplinas/html/historia%20raul%20neto.pdf

O conhecimento combate a pobreza

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*Por Anderson Sousa

Uma das funções da Educação de que gosto muito e que nos foi colocada pela UNESCO (o órgão das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura) diz que: “a educação ajuda a combater a pobreza e capacita as pessoas com o conhecimento, as habilidades e a confiança de que precisam para construir um futuro melhor”.

Em nossas aulas de Ciências Humanas com os alunos da EJA no Mutirão Máster, trabalhamos essa definição, principalmente no que diz respeito ao combate à pobreza – mas a pobreza à qual me refiro aqui não é a pobreza financeira, mas sim a pobreza de conhecimento.

É de extrema importância que o aluno do Ensino Médio, hoje, entenda que o curso que ele faz é o que o próprio nome se propõe a ser, ou seja, um Ensino de caráter MÉDIO. Assim sendo, a importância de se “ter estudo” ultrapassou a barreira da ideia de “Médio”. Sua importância aumentou vertiginosamente com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, particularmente nas últimas décadas do Século XX.

O Mundo de hoje nos dá, de maneira surpreendente, o acesso ao conhecimento. Entretanto, veja só: ele nos dá o acesso ao conhecimento, mas isso não quer dizer que ele faz você INTRODUZIR o conhecimento dentro de si. Adquirir conhecimento vai muito além de apenas ter acesso a ele. Como professores, temos a responsabilidade de trabalhar esses “acessos” que os alunos possuem juntamente com a informação que eles recebem.

Certa vez, uma aluna chegou até mim numa aula e relatou-me das dificuldades que ela tinha em relação ao acesso à internet para fazer boas pesquisas. Essa aluna era ótima leitora, tinha acessibilidade às informações virtuais, mas reconhecia as suas limitações quanto a fazer uma boa pesquisa. Isso tudo numa época em que uma pesquisa virtual pode começar simplesmente digitando algo numa “caixinha do Google”. Entretanto, vemos, nesse caso, como em tantos outros, que uma boa pesquisa, um bom acesso à informação que trará conhecimento, é muito mais do que a tal “caixinha”, e isso a aluna em questão entendia muito bem.
Atualmente, o mundo dito “Globalizado” e o “Mercado de Trabalho” exigem muito mais do que isso, uma vez que há a necessidade de se frequentar cursos e fazer constantes aperfeiçoamentos. Apesar disso, não podemos esquecer de que as práticas dos grupos e a experiência acumulada pelas pessoas ao longo da vida também servem para aumentar sua produtividade e conquistar novas oportunidades.

Segundo uma reportagem produzida pelo Programa “Fantástico” da Rede Globo de Televisão: “Há cem anos, oito de cada dez brasileiros eram analfabetos. O simples fato de saber ler e escrever já garantia um emprego razoável. Foi só a partir da década de 1940 que as empresas passaram a exigir o diploma do curso primário. Quinze anos depois, a exigência passou a ser o ginásio completo. Hoje, as nossas crianças, que aprendem a digitar em casa sozinhas, talvez não entendam por que seus avós tiveram que aprender a digitar num curso que durava seis meses. As empresas exigiam o diploma de datilografia. Lá pela metade dos anos 1960, só um em cada cinco mil brasileiros tinha um Curso Superior. A partir da década de 1970, começou a proliferação de Faculdades no Brasil. De repente, um diploma – de qualquer faculdade, mesmo desconhecida – começou a ser um grande diferencial e a garantia a um ótimo emprego. Na década de 1980, quando a Faculdade já havia deixado de ser privilégio de uma minoria, o diferencial passou a ser um curso de inglês. Na década de 1990, o conhecimento da informática. Nos últimos 10 anos, uma pós-graduação, ou um MBA, que é uma pós-graduação com um nome mais sonoro.

Na década de 1960, um jovem precisava de 3.000 horas de estudo para conseguir um emprego, ganhando três salários-mínimos por mês. Hoje, para conseguir o mesmo emprego, ganhando os mesmos três salários-mínimos, um jovem precisa de 12.000 horas de estudo. Quatro vezes mais tempo estudando, para ganhar a mesma coisa. Isso é justo? Isso é a realidade do mercado de trabalho. Quem não tem condições de fazer um MBA caríssimo pode fazer cursos de curta duração, pois isso mostra disposição e interesse em aprender. E as empresas valorizam esse esforço. Portanto, estudar é preciso. Isso é regra no mercado de trabalho do século 21. E vale para quem tem 15 anos ou para quem tem 50 anos.”

Pode-se afirmar que o conhecimento evolui a cada dia. A tecnologia oportuniza, hoje, inúmeros processos e inúmeras trocas de informações. Ela também nos trouxe a rapidez e a praticidade. Hoje, é necessário ter pessoas preparadas para lidar com o avanço, por isso é muito importante investir em treinamentos e estudos constantemente.

Portanto: nunca desanime!

A história já provou que “o conhecimento é poder em potencial”, mas que só se torna em “poder de fato” quando comunicado ao universo e transformado em ação. O ser humano com conhecimento torna-se mais crítico com o mundo que lhe cerca e sabe melhor selecionar as informações. Essa é, portanto, uma das grandes vantagens de adquirir conhecimento e sair da pobreza intelectual. Quanto mais sabemos, mais poder teremos. Poder, no sentido mais amplo, não significa apenas “ser chefe”, pois quem conhece mais sempre escolhe o melhor. Quem conhece mais amplia sua visão do mundo, pois possui mais subsídios e não se deixa levar pela primeira impressão dos fatos. Francis Bacon já preconizava: “Conhecimento é poder”.

Para um acadêmico, hoje, ou um estudante de curso técnico, é importante que ele saiba que o emprego não é eterno. O emprego sempre existe “por enquanto”, mas, para quem for profissional, sempre haverá uma oportunidade de trabalho. O resultado profissional passa pelo crescimento do conhecimento. Quem tem o desejo de crescer, de se profissional e de realizar seus sonhos pessoais não deve poupar esforços ao adquirir o máximo de conhecimento que puder obter.

Talvez para um aluno, hoje, seja cansativo, muitas vezes até enfadonho, estudar; mas é importante que ele saiba que o “Conhecimento” adquirido vale cada sacrifício. Portanto, assim como digo aos meus alunos da EJA, digo a quem estiver lendo este texto: “Busque conhecimento sempre e, assim, você se tornará um ser humano mais completo e mais crítico. Desse modo, dificilmente você será enganado por essa sociedade cheia de informações úteis, mas que também são fúteis”.

* Professor Anderson Sousa – Licenciado em História pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Docente do Colégio Mutirão Máster.

“Conhece-te a ti mesmo! ” já dizia Sócrates na Caixa de Presente

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* Por Ana Cristina Pütten

Gosto muito de Filosofia. Ao ministrar alguns de seus conteúdos, faz-se necessário recorrer ao método expositivo, ao menos para direcionar os educandos a uma primeira aproximação com o tema. No entanto, aprecio enriquecer minhas aulas com os espaços da cidade onde moramos, que obviamente estão em contraste com a sala de aula.

Assim como Aristóteles, gosto do ar livre com meus alunos Peripatéticos¹. Ok, não realizamos passeios nos jardins do Liceu, mas eventualmente nos jardins do Parque dos Macaquinhos, por exemplo. Em meu último encontro com a Turma M194 da Educação de Jovens e Adultos, mais precisamente no dia 06 de setembro, nossa aula não foi na tradicional sala retangular, com suas cadeiras enfileiradas, e muito menos no espaço encantado das árvores, das flores perfumadas, com os vira-latas de gravatas coloridas que acompanham seus humanos diariamente no parque. Nossa aula foi no saguão da escola, com mate, balas e rapaduras para adoçar nossa noite!

Iniciei nosso encontro mostrando uma caixa de presente. Em seguida, contei uma história. O enredo da narração estava voltado a um fato: eu tinha comprado um presente especial para mim. Comecei a provocar a curiosidade da turma. O que será que havia dentro da caixa? O que aquele objeto escondia de tão interessante?

Assim, convidei os 45 alunos, reservadamente, a abrir a caixa, desde que soubessem guardar segredo e não revelar o teor de seu conteúdo para seus colegas. O convite foi aceito; e o combinado, cumprido. Era interessante verificar as expressões de cada um: havia caras de surpresas, olhares longos, risos disfarçados e encabulados e até alguns que mantiveram semblantes severamente sérios.

No final, perguntei aos estudantes se tinham gostado do presente. Vejam algumas respostas:

– “Profª, a senhora tem bom gosto!”

– “Adorei seu presente!”

– “Nossa, muito bonito!”

– “Que presente caro profª”!

– “ Seu presente está precisando de um regime, hein? ”

– “Pois é… profª, esse presente podia ser melhor!”

O que tinha dentro da caixa era apenas um espelho. Olhar-se no espelho talvez seja uma ação costumeira, mas, mesmo assim, dá-nos uma perspectiva importante no que diz respeito à nossa existência individual. Olhar-se no espelho, enfim, é uma atividade de autoconhecimento.

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Pois bem: a Filosofia também é autoconhecimento. Quando o “conhece-te a ti mesmo” surge na História, precisamente com Sócrates, esse ensinamento expressa uma regra que significa o cuidado de si.  Nesse sentido, é preciso “ Conhecer-me a mim mesmo” para saber como modificar minha relação para comigo, para com os outros e para com o mundo. Sócrates aconselhava-nos que deveríamos nos apegar menos com as coisas materiais — como a riqueza — e menos ainda com os sentimentos efêmeros — como o poder e a fama. Ao invés disso, deveríamos “apoderarmo-nos de nós mesmos”. Você já parou para pensar nisto: que objetivo tenho de “ocupar-me comigo mesmo”?

Depois de aberta a caixa e revelado seu conteúdo, provoquei meus alunos com algumas questões existenciais, tais como:

– Quem sou eu?

– De onde vim? Para onde vou? Que importância eu tenho na vida dos que me cercam?

– Quando eu morrer, que falta farei? Qual será a minha herança para os outros?

– Qual o sentido da minha vida?

– Quais são os meus sonhos?

Enfim, a Filosofia se volta para as questões humanas, em seus comportamentos, em suas ações, nas suas ideias, crenças, em suas atitudes políticas, morais e éticas. Dessa forma, a Filosofia propõe investigar a humanidade e sua forma de existir, e, para que isso ocorra, questiona o homem, os seus valores e o mundo que o cerca. Então, a pergunta que se faz essencial: para que serve a Filosofia? Dentre as inúmeras respostas, estimo a da filósofa Marilena Chauí (2001):

“A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, os valores de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes haver investigado. ”

Seu ponto de partida é a capacidade do indivíduo de investigar, de refletir, de avaliar os atos, as posturas e a relação de si mesmo e com os outros. Refletir é, aqui, a atitude primordial, pois é o processo que o pensamento faz de si mesmo. É retomar o próprio pensamento, pensar o já pensado e, por fim, colocar em questão o que já se conhece. Reflectere² em latim significa “fazer retroceder, voltar atrás”. A reflexão pode ser comparada à imagem refletida no espelho, pois há um “desdobramento” da nossa figura, ou seja, é a ação de “voltar-se para si mesmo”.

A caixa de presente foi uma dinâmica muito simples, mas foi, principalmente, uma ferramenta para provocar e despertar, criando, dessa forma, o despertar filosófico para uma nova visão de si e do mundo. É essencial que nossos alunos possam desenvolver uma consciência crítica, ascendendo à concepção ingênua e alienada sobre os fatos que compõem a realidade social e política em que estamos inseridos.

Na medida em que os estudantes compreendem a realidade que os envolvem através da reflexão, surge a necessidade maior de participação efetiva para modificar e transformar o status quo. Assim pensava Sócrates, pois, quando cuidamos de nós mesmos, modificamos nossas relações com os outros e com o mundo.

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¹ – Do Latim PERIPATETICUS: “relativo à filosofia de Aristóteles”, do Grego PERIPATETIKÓS, literalmente “aquele que anda ao redor”, de PERI-, “ao redor”, mais PATEIN, “caminhar, andar”. Isso porque ele tinha o hábito de ensinar enquanto caminhava com seus discípulos pelos espaços do Liceu de Atenas.

² – Fazer retroceder, voltar atrás. Refletir é, então, retomar o próprio pensamento, pensar o já pensado, voltar para si mesmo e colocar em questão o que já se conhece. ARANHA, Maria Lúcia Arruda de. Filosofia da Educação. São Paulo: Moderna, 1996. p. 106.

Referências

CHAUÍ. Marilena. Convite à Filosofia. Editora Ática: São Paulo, 2001.

Profª Ana Cristina Pütten – Licenciada em História pela Universidade Luterana do Brasil – ULBRA; Especialista em Gestão Educacional pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM; Especialista em Mídias na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG; Especialista em Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Cursista na Especialização em Educação: Espaços e Possibilidades para a Formação Continuada, pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense. Coordenadora Pedagógica do Colégio Mutirão Máster e Professora das Ciências Humanas e suas tecnologias na mesma unidade escolar

Jornal escolar e o uso de tecnologias na produção textual

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*Por Kamila Girardi

Resumo

O presente artigo abrange o desenvolvimento de um projeto denominado “Jornal Escolar” e a sua aplicação em três turmas de Ensino Médio de diferentes níveis: 1ª, 2ª e 3ª séries. Descreve-se, aqui, o trabalho de produção textual, visando a prática da língua escrita através dos mais variados gêneros textuais com que os educandos tiveram contato ao longo da sua formação. A metodologia atribuída ao projeto busca quebrar paradigmas acerca das aulas tradicionais de Língua Portuguesa, promover a pesquisa, inserir a tecnologia em sala de aula e incentivar a autonomia do aluno no reconhecimento das funções comunicativas de determinados gêneros textuais, instruindo-o para a adequação do gênero à situação de comunicação. Além disso, o projeto propõe envolver todas as áreas do conhecimento.

Palavras-chave

Produção textual, tecnologias, pesquisa, autonomia.

 

I. Introdução

O projeto “Jornal Escolar” objetiva criar novos procedimentos para o ensino da Língua Portuguesa, tendo como perspectiva inicial a proposta trazida pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, ou seja, de que se deve trabalhar o texto como base, como o centro do estudo linguístico e, através dele, as competências comunicativas que devem ser desenvolvidas por um falante nativo apto a comunicar-se de forma clara, coerente, concisa e coesa em qualquer situação de interação social.

Com este trabalho, busco enfatizar a importância do gênero textual socialmente situado no domínio jornalístico, primando pela produção de gêneros que visam a veiculação de informações. Os gêneros textuais mais comumente utilizados em mídia jornalística impressa são bastante diversificados, por abarcarem não só a formalidade da língua, em gêneros como o editorial, a reportagem e a notícia, por exemplo, mas por suportarem e aceitarem também a informalidade em gêneros como a charge e a crônica.

O principal objetivo da aplicação da proposta “Jornal Escolar” é desenvolver a competência discursiva escrita, habilidade que entendo ser o principal motivo pelo qual o estudo da língua se faz realmente necessário, embora não seja esse o único. Além disso, o estudo da Língua Portuguesa deve estar intimamente ligado às necessidades reais dos falantes nativos em suas práticas linguísticas cotidianas.

A elaboração de um jornal escolar não só proporciona aos alunos a possibilidade de se expressarem com liberdade, como também oportuniza uma visão crítica acerca dos usos que fazemos da língua. O aluno é motivado a produzir sobre assuntos que são do seu interesse, sem imposição de um gênero textual comum, uma vez que a escolha do gênero dependerá exclusivamente da mensagem e da maneira como o aluno irá divulgá-la.

Tendo em vista a importância de se trabalhar com gêneros textuais em sala de aula, fazendo da produção textual um exercício de aprimoramento das competências linguísticas do aluno, é primordial que se reflita sobre a exploração da escrita. De acordo com Antunes (2003), a escrita é uma atividade que requer a interação entre duas pessoas: um escritor e um leitor. Para que faça sentido a elaboração de um texto, é fundamental que se leve em consideração o seu público-alvo. Ao escrevermos, fazemo-nos para que alguém leia. O jornal escolar proporciona essa interação, uma vez que a produção textual está diretamente voltada para um leitor (aquele que busca a informação). Para que o processo de escrita faça sentido para o aluno e para que o texto produzido atinja a sua função comunicativa, se faz necessário o envolvimento de um leitor no processo, pois, segundo Antunes (2003) “quem escreve, na verdade, escreve para alguém, ou seja, está em interação com outra pessoa”.

Para desenvolver um projeto de escrita, primeiramente devemos arquitetá-lo sob as seguintes perspectivas: escolha do assunto a ser tratado, os objetivos que queremos atingir ao abordarmos esse tema, o gênero adequado à situação de comunicação, a organização das ideias principais (para que o texto não seja apenas uma emaranhado de informações desconexas em entre si) e, por último, levar em consideração que haverá um leitor no processo e que o texto deve passar exatamente a mensagem pretendida pelo escritor.

Sabemos que muitos são os gêneros textuais conhecidos e outros tantos estão surgindo em decorrência dos avanços tecnológicos. De acordo com Marcuschi (2010), os meios de comunicação em massa, tais como o jornal impresso, por serem bastante presentes e ganharem destaque nas atividades de comunicação sociais reais, abrigam novos gêneros. Para Marcuschi (2010), os gêneros textuais são fenômenos históricos profundamente relacionados com a vida cultural e social, pois estabilizam as atividades de comunicação do dia a dia.

Quando da elaboração de uma mídia eclética como um jornal escolar, as possibilidades de gêneros que podem ser utilizadas são amplas. Os alunos são autores autônomos, capazes de escolher o que querem expressar da maneira como querem expressar. É claro que os gêneros textuais possuem formas pré-concebidas, mas nada impede a sua alteração para adequar à situação de comunicação.

Com a elaboração de mídia jornalística impressa, os alunos não só têm o contato com a produção textual em si, mas também com o uso de tecnologias que permitirão essa ação. Essas tecnologias, tão presentes na vida dos nossos alunos, são desmistificadas quando aliamos suas utilidades pedagógicas ao contexto de sala de aula. Sabemos que, mesmo com tantos recursos digitais, ainda é um desafio para o professor a proposta de apropriar-se deles para o trabalho, ou por falta de conhecimento de como manuseá-los, ou por não saber como introduzi-los em suas aulas de forma a suscitar conhecimento. A internet é um mundo de amplas possibilidades a serem exploradas e os aparelhos como notebooks, tablets e smartphones, devido à grande praticidade, são instrumentos que não só propiciam acesso à informação de forma imediata, como facilitam a produção de material escrito. Para um projeto que envolve tantos recursos, como a elaboração de um jornal, a tecnologia é fundamental para que o processo culmine ao resultado esperado.

II. Jornal na prática

A proposta de desenvolver um projeto para criação de um jornal escolar foi elaborada por mim e vivenciada pelas turmas de Ensino Médio com as quais trabalho em determinada escola da rede particular de ensino. A fase inicial do programa contemplou a divulgação da ideia da fabricação de um jornal em que os próprios alunos assumiriam as editorias, de acordo com seus interesses e afinidades.

A primeira ação desenvolvida foi possibilitar aos alunos o contato com a realidade de um jornal. Em um primeiro momento, convidamos uma profissional, graduada na área do jornalismo, para pormenorizar as ações desenvolvidas pelo jornalista nos meios de comunicação. A visita proporcionou uma visão ampla de como se elabora a mídia impressa, a composição da equipe de editores e revisores e o processo de criação desde a montagem até a impressão. Após os esclarecimentos da profissional convidada, os alunos tiveram contato com o material impresso, cortesia de um jornal local, para que pudessem manuseá-lo, observando suas características e, principalmente, seu conteúdo. Além da conversa com a mencionada profissional, outros dois jornalistas participaram do projeto através de vídeo previamente gravado. Um deles, editor de mídia online e, o outro, repórter e apresentador televisivo, ambos jornalistas por formação, que expuseram suas atribuições, ampliando assim, a visão dos alunos sobre a profissão e as possibilidades de atuação junto ao mercado.

A segunda ação desenvolvida, foi a mobilização das turmas para o reconhecimento da elaboração do jornal. Os alunos foram incentivados a pesquisar por diversas maneiras de projetar uma mídia impressa, estudo esse que engloba desde os gêneros textuais mais adequados ao contexto comunicativo até a simples formatação do texto no papel. Alguns sites com conteúdos voltados diretamente ao assunto foram selecionados e repassados para que os alunos pudessem, com liberdade, manuseá-los e, com autonomia, decidir sobre a utilização dos materiais disponíveis, julgando o que seria pertinente ao projeto em que estavam engajados. O envolvimento na pesquisa proporcionou segurança na atribuição das funções: alguns se sentiram mais à vontade para produzir matérias mais longas, outros para criar layouts de acordo com as editorias e, ainda, houve aqueles que utilizaram suas habilidades artísticas para elaborar gêneros mesclando texto e desenho.

Após a pesquisa de projeção da mídia impressa, a terceira ação foi a produção textual. Nessa etapa, os alunos foram incentivados a utilizar, em sala de aula, notebooks, tablets e smartphones para auxiliá-los na pesquisa e na elaboração dos textos. Comprova-se, com as atividades aqui desenvolvidas, que o uso de tecnologias em sala de aula é muito produtivo mediante planejamento e combinações previamente estabelecidas. Os smartphones, tão presentes na vida dos nossos alunos, passam a ser não só aliados da educação que permite o acesso à tecnologia, mas desmistificados pelos próprios alunos como objeto de utilidade que vai além da simples consulta a redes sociais. Para implantar o smartphone como objeto de trabalho em sala de aula, sem que isso prejudique o bom andamento das atividades, é preciso tratá-lo como equipamento de suporte à pesquisa. Além disso, para a produção de um jornal, o aluno pode utilizar o equipamento não só para a elaboração do texto, mas para diversos outros fins, como por exemplo, para captar imagens que irão acompanhar as matérias.

O momento da produção textual é, sem dúvidas, o mais importante na proposta, pois o aluno deve decidir o assunto sobre o qual irá escrever, o gênero textual mais adequado à situação comunicativa, além de demonstrar a autonomia pela busca de informações coerentes. Nessa etapa foi fundamental a orientação da professora em todos os sentidos, desde as escolhas dos temas até a produção final. É importante ressaltar que o envolvimento foi tamanho que, inclusive, foram agendados horários extraclasse para orientação de pequenos grupos, a fim de garantir a qualidade das produções textuais e a confiabilidade das informações veiculadas.

A quarta ação do projeto foi avaliação dos textos. Nessa etapa, os alunos tiram contato com as criações uns dos outros, com o intuito de criticar (positiva ou negativamente) o trabalho dos colegas e a fim de sugerir os melhoramentos necessários. Após essa socialização, todos enviaram as produções textuais para a professora, por correio eletrônico, para receber a aprovação da publicação, a revisão ortográfica e gramatical e as orientações para a retextualização.

A quinta e última ação, foi o processo de criação de título e layout, trabalho desenvolvido por alunos que se candidataram para elaborá-los. A organização dos textos foi realizada por uma equipe pré-selecionada que fez a compilação de todo o material enviado. É importante ressaltar que, durante o processo, verificou-se a adesão cada vez maior dos alunos que procuravam, de forma voluntária, maneiras de participar da projeção da mídia impressa.

III.  Resultados

A aplicação do projeto que objetivava incentivar a pesquisa, o uso de tecnologias aliado à educação, a autonomia do educando na busca por informações e a qualidade da produção textual, foi atingida com o êxito esperado.

Alguns textos publicados no jornal seguem como exemplo da boa qualidade das produções textuais dos alunos, bem como para demonstrar o nível de pesquisa em que se engajaram.

O primeiro exemplo é de autoria da aluna Pietra Dal Sasso Quintans Graça, da 3ª série do Ensino Médio:

INIMIGO OU AMIGO PÚBLICO?

Muitas pessoas, ao se depararem com embalagens que contém um símbolo amarelo com a letra “T”, perguntam-se o que esse pictograma significa e de que maneira ele interfere na alimentação. Esse “T” é utilizado para a identificação dos produtos transgênicos, ou seja, alimentos modificados geneticamente em laboratórios. Os alimentos transgênicos foram desenvolvidos com o objetivo de aumentar a resistência a pragas e doenças, para diminuir o uso de agrotóxicos favorecendo o aumento da produtividade e, consequentemente, do lucro. Porém, esse tipo de tecnologia agrícola, utilizada em muitos países, inclusive no Brasil, resultam em polêmica, pois ainda não há consenso na comunidade científica sobre a segurança desses alimentos para a saúde humana e para o meio ambiente.

O Greenpeace, uma organização global independente, cuja missão é proteger o meio ambiente e inspirar mudanças para um futuro mais verde, defende um modelo de agricultura baseado na diversidade agrícola, logo, acredita-se que o uso de transgênicos possa ser muito prejudicial para o meio ambiente e para a saúde. Dentre os principais efeitos negativos, destacam-se:

Pelo fato de serem resistentes aos agrotóxicos, o uso contínuo das sementes transgênicas leva à resistência de ervas daninhas e insetos, o que induz o agricultor a aumentar a dose dos agrotóxicos ao ano e, em consequência dessa utilização indiscriminada, acabam contaminando o solo e pondo em risco a biodiversidade.

Os transgênicos aumentam a resistência a antibióticos, pois, para poder ter certeza da eficácia da modificação genética, são introduzidos genes de bactérias resistentes a antibióticos e, com isso, o consumidor também pode se tornar resistente aos antibióticos prejudicando a saúde.

Apesar de não haver informações científicas suficientes sobre todos os efeitos dos transgênicos na saúde humana, alguns fatores puderam ser observados. Quando se insere um gene de um ser em outro, há formação de novos compostos nesse organismo, podendo ocorrer a produção de novas proteínas alergênicas ou de substâncias que provocariam efeitos tóxicos não identificados em testes preliminares.

Por outro lado, existem estudos que apontam muitos benefícios aos transgênicos e acusam o Greenpeace e demais ONGs “antitransgênicos” de apontar os riscos e impactos sem ter comprovações. Nesse contexto, os benefícios que merecem destaque são:

O arroz dourado é uma variante criada em 1999 com genes modificados para produzir um percursor da vitamina A, que pode reduzir o número de crianças que sofrem de carência dessa vitamina, que causa cegueira e problemas oculares.

Os transgênicos podem ser uma solução ao problema da fome enfrentado no mundo, pois podem levar ao aumento da produção de alimentos. Além disso, o seu custo é baixo.

Tendo em vista os prós e contras desse tipo de alimento, cabe ao consumidor eleger consumi-los ou optar pelos alimentos orgânicos. Portanto, devido à falta de comprovações sobre os malefícios e benefícios, fica clara a importância de os produtos transgênicos possuírem rótulos com informações para o consumidor. A descrição da composição do alimento e o gene que foi inserido no produto devem ser informados.

O segundo exemplo é de autoria dos alunos Ellen Ilha de Andrade e João Vítor Biazussi da Silva, da 2ª série do Ensino Médio:

A PSICOLOGIA EM QUADRINHOS

Internet, cinema, notícias, atualmente têm se destacado diversas informações curiosas do mundo geek, desde o explosivo sucesso de filmes de heróis até jogos de suicídio e palhaços macabros. Diante disso, vamos, do interessante ao mórbido, unir esses assuntos, tratar do humor e autossatisfação, nas personagens, em seu aspecto mais psicótico e perturbador. O Coringa, príncipe palhaço do crime, a princípio um simples vilão de quadrinhos do Batman, possui, no entanto, uma profundidade inimaginável.

Inimigo mortal do Homem morcego, o Coringa é comumente visto como insano, desde seus atos, seus trajes, e sua teoria de que “um dia ruim é tudo que lhe diferencia do dito normal”, até sua eterna risada e, principalmente, o motivo dela.

Para explicar as ações da personagem, ninguém melhor do que o pai da psicanálise e sua definição de ID, ego, e superego, em que o primeiro seria a parte mais primitiva do cérebro, a origem dos impulsos e desejos que não chegam a consciência ou que são por ela reprimidos, resumidamente, o princípio do prazer sem medir esforços. Em contrapartida, o superego teria a função de controle, sem visar essencialmente a moral, mas sim um ideal, uma justiça além da justiça, no caso, um herói que vai além do sistema. Tudo se torna mais claro se analisarmos a função do ego, de equilibrar os anteriores, pois a censura excessiva pode gerar respostas extremas do ID, como psicose, algo que nos quadrinhos é representado pelo Batman, que cria sua nêmese através da repreensão exagerada que causa.

Com o passar dos anos, o Coringa apresentou-se em inúmeras versões, desde um piadista brincalhão até um genocida cruel, devido a isso, naturalmente, existem gritantes diferenças entres suas aparições, o fato de, por vezes, ele quebrar a quarta parede falando diretamente com o público leitor, tal ação gerou a teoria de super sanidade, que alega que o Coringa seria, na verdade, mais ciente do mundo do que qualquer outro e, assim, saberia que tudo a sua volta tratar-se-ia de mera ficção, porém essa ideia possui falhas considerando que nem sempre ele segue o padrão de se direcionar ao público e dialogar com o mesmo. Contudo, ergueu-se um fato: o coringa não é insano nem ao menos apresenta características de insanidade, como alucinações, melancolia, paranoia ou fobias sem motivos.

O mais incrível é que, mesmo com tantas mudanças, existem sim características comuns às versões do palhaço, entre elas, destaca-se seu narcisismo, egocentrismo, falta de empatia e, principalmente, o humor. Os três primeiros muito remetem à psicopatia, tornando-o alguém não insano, mas inteligente o bastante para fingir insanidade e, o último, que é praticamente seu símbolo, deve ser analisado.

Como diria Schopenhauer, o humor é resultado da contradição, aquilo que devia ocorrer e o que ocorre. Indo além de Freud, que afirma que o humor se compara ao sonho, em que o inconsciente pode aparecer sem consequências ou censuras, o que é ainda melhor visto em sua comparação de que o sonho é a porção necessária e cotidiana de loucura do indivíduo. Em resumo, o humor seria a contradição entre verdades profundas, ideias superficiais e valores tradicionais. Com essa visão um tanto quanto niilista, pode-se trazer a seguinte percepção do filósofo Nietzsche: “eu até me permitiria uma hierarquia dos filósofos de acordo com seu riso, chegando até aqueles com a risada de ouro e supondo também que os deuses filosofam. Não duvido que saibam rir de maneira nova e sobre-humana e às custas de todas as coisas sérias”; que muito lembra uma frequente frase do coringa “It’s all a joke”, em que afirma que o mundo nada mais é a ele do que uma grande piada. Isso expõe seu niilismo, presente em todas as versões da personagem, apenas em diferentes intensidades.

 Dito isso, pode-se dividir o príncipe palhaço em três personas de acordo com as características do ID. O brincalhão, que busca saciar seus desejos; o gênio do crime, que age em resposta ao agente de repreensão; e, por último, aquele que possuiria o maior conhecimento de si e do mundo e busca mostrar as contradições da sociedade. Essa percepção nos leva a observar uma relação entre o niilismo e a atuação do ID, pois quanto mais se nega os ditos sociais, menor será a validade do superego e, por consequência, maior será a influência do ID, que pode causar forte oposição a tudo que lhe for diferente.

Após todo esse estudo, podemos encerrar o diagnóstico, caracterizando o Coringa, não como louco, mas sim como um caso de super sanidade, uma visão superior da realidade, tendo em vista que a mesma pode vir a fazer pessoas agirem como loucas ou no mínimo anormais, o que pode ser visto no caso do próprio Nietzsche que antes de seu colapso já era considerado por muitos como estranho ou até mesmo insano.

O terceiro e último exemplo é de autoria da aluna Luísa Fracalossi Reinbrecht:

Editorial – Feminismo

Nossa sociedade atual é bela, simpática, amigável e, após afirmar isso, devo alegar que somos todos mentirosos. Concordo que, às vezes, é mais fácil colocar todos os nossos problemas dentro de uma caixinha e mantê-la trancada para sempre com um cadeado enorme, mas já parou para pensar o quanto você sofre por ignorar todas essas complicações apenas pelo medo de enfrentá-las? 

Na minha opinião, um dos maiores problemas com os quais lidamos é a desigualdade. Por causa dela construímos barreiras e criamos desgosto por pessoas que são exatamente iguais a nós. Muitas vezes, deixamo-nos enganar que as injustiças só acontecem longe de onde estamos, que nunca seremos afetados, e é por isso que decidi escrever sobre esse assunto. Mais especificamente sobre a dificuldade que muitos de nós ainda têm para enxergar o mesmo potencial nos dois sexos, e o que considero ser a solução para esse problema: o feminismo.

Gostaria de pedir para que você pense em cinco mulheres que conhece e, agora, devo avisá-lo(a) que uma delas possivelmente foi, ou será estuprada durante sua vida. É duro de aceitar, mas é a verdade. Supondo-se que você assista a algum tipo de série, documentário ou até mesmo novela que dure cerca de 45 minutos, provavelmente me diria que aproveitou bem o seu tempo, que se divertiu. No entanto, preciso informá-lo(a) de que, no Brasil, durante esse curto período, quatro pessoas do sexo feminino foram violentadas e elas não podem concordar com você sobre terem se divertido, porque não pediram por isso, foram forçadas. De qualquer modo, outro fato que realmente deveria preocupar as pessoas, é que, no nosso país, a cada 1 hora e 30 minutos mais uma mulher, uma mãe, uma irmã ou uma amiga não sobrevive aos maus-tratos de um homem.

É claro que, além destas situações citadas, existem milhares de outras em que podemos ver a injustiça sendo praticada, mas gostaria que você lembrasse que não é apenas com as mulheres que isso acontece, afinal, quem nunca viu algum garoto ser motivo de risadas por demonstrar seus sentimentos, ou chorar? Por que é estranho vê-los usando roupas cor de rosa? Qual é o problema de um menino não gostar de ser agressivo?

Em todo o caso, não quero que entenda que o problema está só na sua cidade, no seu estado ou no seu país, mas no nosso mundo. Antes de sermos divididos por diferentes nacionalidades, etnias, raças e culturas, todos vivemos no mesmo planeta, todos somos humanos.

Mulheres e homens jamais serão iguais sob hipótese alguma, mas, por ambos serem pessoas e terem sentimentos do mesmo jeito, concordo com a igualdade dos sexos, concordo com o feminismo. Eu acredito que não hoje, mas algum dia poderemos fazer o bem sem demasiados esforços, e é disso que as mulheres africanas que não tem acesso à uma educação completa, precisam. É disso que as mulheres que recebem menos salário do que os homens pelo mesmo trabalho, precisam. É a humanidade de que todos nós precisamos.[1]

IV. Conclusões

O uso de tecnologias em sala de aula é cada vez mais requerido pela geração Z. Aliar-se ao que é inevitável faz com que consigamos uma aproximação maior dos nossos alunos com os objetos de estudo aos quais são submetidos e ampliemos as possibilidades de aprendizagem. Se faz necessária uma reavaliação dos processos utilizados em sala de aula, levando-se em consideração o avanço tecnológico que tivemos no mundo nos últimos vinte anos. Se resistirmos ao implantar procedimentos que condizem com a realidade dos educandos, muito provavelmente estaremos nos posicionando contra uma evolução natural. É imprescindível inserir a tecnologia em sala de aula, fazendo do seu uso parte integrante do processo de ensino e de aprendizagem. As tecnologias, quando bem utilizadas, proporcionam um contato muito maior com o mundo e praticidade na busca por informações. Apropriar-se de ferramentas que dinamizem a aula, diversificar as metodologias levando em consideração a realidade do aluno e ampliar as fontes de aprendizado são elementos fundamentais para a construção do conhecimento.

V. Bibliografia

ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro e interação. São Paulo: Parábola, 203, p. 44-66.

________________. Língua, texto e ensino: outra escola possível. São Paulo: Parábola, 2009, p.49-73.

BALTAR, R. A. Marcos. A competência discursiva através dos gêneros textuais: uma experiência com o jornal de sala de aula. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2003. 149. Programa de Pós-graduação em Letras. Porto Alegre, 2003.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: Gêneros textuais e ensino. São Paulo: Parábola, 2010, p. 19-38.

[1] Referências utilizadas pelos alunos:

http://psicologia-ro.blogspot.com.br/2013/02/coringa-e-o-arquetipo-do-louco.html

https://www.dicio.com.br/sanidade/

http://divadoescritor.blogspot.com.br/2009/01/id-x-superego-em-batman-o-cavaleiro-das.html

http://sequart.org/magazine/64378/ladies-and-gentlemen-hobos-and-tramps-cross-eyed-mosquitoes-and-bowlegged-ants-loving-that-joker-but-which-one/

http://sequart.org/magazine/60541/peaslee-and-weiner-on-joker-serious-study-of-clown-prince-of-crime/

http://sequart.org/magazine/40157/perfect-chaos-why-the-joker-is-the-greatest-comic-book-villain/

http://sequart.org/magazine/52185/theorizing-about-the-joker-in-all-seriousness/

O que é ego, id e superego?

Resumo: ID, EGO E SUPEREGO

http://filosofia.ceseccaieiras.com.br/freud-id-ego-e-superego

Teorias de Freud – Resumo das Teorias freudianas

10 Coisas que as pessoas entendem errado sobre o Coringa!

https://sindicatonerd.com.br/conheca-o-personagem-coringa/

http://www.momentumsaga.com/2013/08/analise-do-inimigo-o-coringa.html

https://pensador.uol.com.br/autor/friedrich_nietzsche/biografia/

*Kamila Girardi: Graduada em Licenciatura Plena em Letras pela Universidade de Caxias do Sul e professora de Língua Portuguesa e Literatura do Colégio Mutirão de Bento Gonçalves.

Qual é a sua?

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*Por Lucia Caroline Cornely

A sala de aula é um ambiente de diversidade, com variedade de indivíduos em diferentes fases de desenvolvimento e conhecimento. Essas características definem as inteligências predominantes em cada um deles. Mas para começar, o que é inteligência?

Inúmeros são os conceitos de inteligência. Os famosos testes de QI são focados em compreensão lógico-matemática e por muito tempo definiram a inteligência e a burrice. O conceito se modifica com Daniel Goleman e a percepção de uma inteligência emocional, que culmina nas inteligências múltiplas. Para Gardner (apud RODRIGUES, 2015): Inteligência é a habilidade para resolver problemas ou criar produtos que sejam significativos em um ou mais ambientes culturais”.

A teoria das Inteligências Múltiplas(IM) surgiu com Gardner (1994). Ele afirma que todos os indivíduos são inteligentes e que dentre as nove inteligências catalogadas haverá duas inteligências em destaque e uma inteligência pouco desenvolvida.

 As habilidades predominantes nos indivíduos são resultado da valorização cultural e social de determinada habilidade. Em uma região tipicamente boêmia é valorizada a musicalidade, enquanto em um ambiente acadêmico o mais importante é a produção científica.

As IM’s trazem outro tema importante para debate: a raridade de superdotados e a desmistificação das pessoas com deficiência, porque afinal todos temos habilidades mais e menos desenvolvidas.

As IM são atualmente nove, mas isso pode mudar, pois é uma classificação de percepção de habilidades e o próprio Gardner renova periodicamente sua teoria. São elas:

1) Lógico-matemática: Trata-se da sensibilidade para padrões, ordem e sistematização. Habilidade para lidar com uma linha de raciocínio, levantar hipóteses, trabalhar com manipulação de símbolos. Mais presente em matemáticos, físicos e diversas pessoas que lidam com raciocínios lógicos e matemática.

2) Linguística: Sensibilidade para o significado das palavras e funções da linguagem,sensibilidade para usar a linguagem de forma apropriada para transmitir ideias. Facilidade para aprender idiomas. Mais presente em poetas, escritores e diversas pessoas que usam a linguagem de forma efetiva.

3) Espacial: Percepção do mundo visual e espacial, pensar de maneira tridimensional, criar, transformar e modificar imagens, se localizar e localizar objetos no espaço. Mais presente em arquitetos, escultores, navegadores e diversas pessoas que operam com o espaço.

4) Corporal cinestésica (ou físicocinestésica): Capacidade de controlar o corpo de forma fina, com coordenação, precisão e habilidade. Mais presente em atletas, dançarinos e diversos artistas.

5) Interpessoal: Capacidade de interagir de forma efetiva com outras pessoas, responder apropriadamente aos temperamentos, humores, motivação, compreender e motivar. Mais presente em políticos, vendedores, professores, líderes e diversar pessoas que trabalham com motivação.

6) Intrapessoal: Capacidade de entender a si mesmo, lidar com seus desejos e sonhos, direcionar a própria vida de forma efetiva. É o correlativo interno da inteligência interpessoal.

7) Musical: Habilidade para produzir e apreciar ritmos, tocar instrumentos e compor.

8) Natural: Sensibilidade com a natureza, para o entendimento da mesma e

desenvolvimento de habilidades biológicas.

9) Existencial:Capacidades filosóficas, refletir sobre a existencia e a vida.

A existência e classificação de inteligências é um importante fator de conhecimento para o educador em sala de aula, pois ainda hoje as habilidades mais valorizadas e recompensadas nas escolas são a linguística e lógico-matemática, vide carga horária das disciplinas valorizadas desigualmente. Qual a necessidade de quatro períodos de matemática e apenas um período de artes?

É necessário repensar a prática educativa de forma inclusiva. Para alguém com a predominância corporal cinestésica torna-se uma tortura cinco horas ouvindo alguém falar.  Desta forma devemos aproveitar todas as estruturas disponíveis para aumentar o grupo a qual chega o conhecimento. Uma pequena animação resumindo o conteúdo atinge mais educandos que uma explicação oral, por exemplo.

Urge a necessidade de reformarmos o sistema educacional, repensar a forma de ensinar, melhorar as estruturas educacionais públicas para impulsionarmos uma educação efetiva e de qualidade que inclua a todos.

*Professora com bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/RS). Docente no Mutirão Farroupilha na área das Humanas, e também na rede estadual de ensino.

Referências:

GARDNER, Howard. Estruturas da mente. A Teoria das Inteligências Múltiplas. Porto Alegre. Artes Médicas, 1994.

RODRIGUES, Letícia Gomes. Um Estudo sobre a Teoria das Inteligências Múltiplas. Universidade de São Paulo, 2015. Disponível em: < http://www.gradadm.ifsc.usp.br/dados/20152/SLC0631-1/Trabalho_tipos_inteligencia.pdf>

TOGLATIAN, Marco. Teoria das inteligências múltiplas. Disponível em:

<http://www.togatlian.pro.br/docs/pos/unesa/inteligencias.pdf>.

 

Meu filho não consegue aprender na escola. E agora, o que fazer?

dai

*Por Daiane Bandeira de Assunção Marin

No âmbito escolar muitas são as “queixas” dos pais sobre o processo de aprendizagem dos filhos. As maiores frustrações ocorrem quando os estudantes não conseguem aprender o “conteúdo” exposto na escola, e então começam as perturbações que cercam as famílias, e os questionamentos de práxis: Por que meu filho não aprende? Será que tem algum problema ou doença? Vamos levá-lo ao médico? Talvez ele resolva com um remédio…

Mas afinal, porque muitos indivíduos não conseguem aprender ou compreender o que o professor está tentando ensinar?

Esta questão abrange um campo da educação e saúde pouco conhecida, mas que vem sendo exercida desde a década de 70 no Brasil, chamada Psicopedagogia. Seu profissional é o psicopedagogo, que pode auxiliar nas respostas as perguntas mencionadas no início do texto.

Podemos definir Psicopedagogia de acordo com o Código de Ética do Psicopedagogo, Capítulo I Artigo 1º: “A Psicopedagogia é um campo de atuação em Educação e Saúde que se ocupa do processo de aprendizagem considerando o sujeito, a família, a escola, a sociedade e o contexto sócio-histórico, utilizando procedimentos próprios, fundamentados em diferentes referenciais teóricos.”

Essa área da saúde e educação é interdisciplinar, ou seja, precisa atuar e interagir juntamente com outras áreas e seus profissionais: neurologistas, médicos, psicólogos, professores, pedagogos, fonoaudiólogos, entre outros. E claro, em primeiro lugar interagir diretamente com a escola. Em conjunto pode-se obter um resultado relevante junto ao individuo.

Bossa pode nos definir melhor a psicopedagogia: “É uma nova área de atuação profissional que busca uma identidade, e que requer uma formação de nível interdisciplinar, o que já é sugerido no próprio termo Psicopedagogia”. (Bossa, 1995, p.31).

O objeto de estudo pode ter dois enfoques, preventivo e terapêutico.  O primeiro tem como objeto de estudo o ser humano em processo de desenvolvimento está sempre em processo constante de construção de conhecimento. O segundo realiza a análise e tratamento nas dificuldades de aprendizagem do individuo. Normalmente, não generalizando, os pais, ao se depararem com as dificuldades de aprendizagem dos seus filhos, podem seguir duas linhas de pensamento: contratar todos os profissionais possíveis da área da saúde para que esses possam achar uma solução para o “problema” de seus filhos ou então simplesmente culpar a instituição de ensino na qual seu filho está inserido, por não ter uma metodologia de ensino adequada e competente.

Entendemos as aflições dos pais, mas antes de “culpar” alguém pelo baixo desenvolvimento de aprendizagem dos nossos filhos, precisamos entender e compreender o que ocasiona de fato essa dificuldade no aprendizado.

Como citado acima, a psicopedagogia tem por objetivo analisar, ou seja, observar e compreender algo que vai muito além de um olhar apenas ou de julgamento precipitado. A psicopedagogia analisa o que está implícito.  O psicopedagogo deve “garimpar” as informações no ser humano, buscar entender a relação do aprendiz com a aprendizagem, pesquisar o seu estilo cognitivo. Afinal, somos seres que aprendemos, temos significações inconscientes. Bossa nos explica com clareza o papel do diagnóstico feito pelos profissionais: “O diagnóstico psicopedagógico é um processo, um contínuo sempre revisável, onde a intervenção do psicopedagogo inicia, segundo vimos afirmando, numa atitude investigadora, até a intervenção. É preciso observar que esta atitude investigadora, de fato, prossegue durante todo o trabalho, na própria intervenção, com o objetivo de observação ou acompanhamento da evolução do sujeito.”( Bossa, 1994 p. 74)

Outro aspecto bastante importante no processo de aprendizagem do individuo é compreender que seu primeiro vínculo afetivo é a família, e esta tem um papel importante e primordial na educação e aprendizagem da criança. Portanto, em alguns casos o “fracasso” escolar pode sim estar relacionado com o vínculo familiar. Souza nos define isso: “[…] fatores da vida psíquica da criança podem atrapalhar o bom desenvolvimento dos processos cognitivos, e sua relação com a aquisição de conhecimentos e com a família, na medida em que atitudes parentais influenciam sobremaneira a relação da criança com o conhecimento.”( Souza, 1995, p.58)

Portanto, para responder a questão que usei como título dessa publicação veja que vários aspectos devem ser analisados, e que hoje o psicopedagogo, é essencial no processo de aprendizagem dos alunos com dificuldades.

Não podemos apenas como docente e instituição definir que o aluno é um “problema” sem ao menos entender e analisar qual o gerador desse problema, e a partir disso solucionar.

Para conhecimento, no momento o Projeto de Lei 3124/97 do Deputado Federal Barbosa Neto, busca regulamentar a profissão de Psicopedagogo, tendo em vista que o trabalho de outras e da atual gestão da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia), tem amparo legal no Código Brasileiro de Ocupação. Isto quer dizer que já existe a ocupação de Psicopedagogo, porém, não é suficiente. Faz-se necessário que esta profissão seja regulamentada.

Professora Daiane Bandeira Assunção Marin. Graduada com Licenciatura Plena em Letras pela Universidade de Caxias do Sul em 2010. Professora e tutora na Instituição de Ensino Mutirão, atualmente aluna da pós graduação em Psicopedagogia pela Universidade Caxias do Sul – CARVI Bento Gonçalves. 

Referências

BOSSA, Nádia. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994.

BRASIL. Projeto de Lei 10.891. Disponível em http://www.psicopedagogiaonline.com.br. Acesso em 25 de julho de 2005.

SOUZA, Audrey Setton Lopes. Pensando a inibição intelectual: perspectiva psicanalítica e proposta diagnóstica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995.

 

 

 

Se nada der certo…

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*Por Ana Cristina Pütten (abraçada na nossa querida Tia Inês)

Este ano é muito especial para a história cristã. Em 31 de outubro, comemoram-se os 500 anos da Reforma Luterana ou Reforma Protestante. Na Alemanha de 1517, Martin Lutero causou uma revolução social e política que se disseminou em vários países pelo mundo. Ao se deparar com a venda das indulgências, começou a contestar a igreja Católica, afirmando seu distanciamento e hipocrisia em relação aos ensinamentos de Cristo. A história é responsável pelo respeito que dedico a essa instituição protestante e sou simpatizante da mesma, apesar de não ser batizada em sua doutrina. Assim, conhecendo um pouco dessa religião, garanto a vocês que Lutero deve estar se remexendo no caixão depois do recreio temático da escola Instituto Evangélico de Novo Hamburgo (IENH): “Se nada der certo”!

Confesso que estou incomodada, desconfortável com o evento, porque ética é a garantia de credibilidade nos valores de uma escola. Para uma instituição de ensino ser decente, exige-se convivência social, empenho pedagógico, amorosidade, empatia, companheirismo e, acima de tudo, o valor do respeito. Respeito é uma palavra com origem no latim: respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez”, de re-, “de novo”, mais specere, “olhar”. Veja que linda é essa ideia de algo que merece um segundo olhar e, consequentemente, uma ação de consideração e reverência. Mas o que ocorreu no dia 17 de maio foi justamente o contrário. O elitismo, a cultura dos privilegiados sobre as profissões dignas, mas que não carregam diplomas, demonstra preconceito, deboche e, acima de tudo, a inferiorização de algumas categorias de trabalhadores, tais como faxineiras, domésticas, garis, atendentes do Mc Donalds, entre outros.

No Mutirão, temos uma profissional de sucesso que é referência para a maioria dos colegas que integram o Instituto Cultural e Desportivo Mutirão Ltda. A colaboradora Agnes Legramanti, apesar de possuir um nome bonito de descendência francesa, fala e escreve muito bem o italiano. Possui 82 anos, sendo que 45 deles estão sendo dedicados à nossa escola. Suas habilidades e competências na função para a qual é contratada são de causar inveja. Ela possui a excelência que toda empresa deseja. Ela é comprometida, responsável e, além de tudo isso, conta com uma pontualidade inglesa, sendo uma funcionária impecável. Ela é conhecida carinhosamente como Tia Inês. Seu cargo? Auxiliar de Higienização.

Tia Inês é uma pessoa incrível. Apesar de pequena em tamanho (1 metro e meio, não tenho certeza), ela é gigante em comprometimento e eficiência. Por causa dela, semanalmente, temos dois dias sagrados na minha opinião. A quinta-feira é santa: ela faz um lanchinho especial para a nossa equipe. Pão novinho e fresco, com chimia de uva que ela mesma cozinha e mel. Também temos a sexta-feira santa: as bomboniéres de cada setor ficam cheias de balinhas e guloseimas para adoçar os nossos dias. Se alguém está doente, lá vem ela, com chazinhos e xaropes milagrosos. Dificuldades na vida privada? Basta deixar o nome completo em um pedacinho de papel. Ela levará para as “Carmelitas” rezarem por você. E quando ela aparece na minha sala de aula com chimarrão? Meus alunos deliram de felicidade, principalmente nestes últimos dias frios e úmidos. A Tia Inês nos aquece com sua amorosidade. Ela nos alimenta. Não enche apenas o nosso estômago, mas nossa alma com vida. Ela cuida, protege, tem uma empatia enorme pelos seus semelhantes, é solidária e fraterna. Ela é uma das profissionais mais dignas, honestas e éticas que conheço. O meu dia sempre fica melhor com seu abraço diário. Esqueci de comentar: aos 82 anos, ela ainda é educadora. Sim, é professora de catequese!

Resumidamente contei um pouquinho do “case de sucesso” da Senhora Legramanti. Sabe por quê? Não importa a sua profissão, desde que você possa desempenhá-la com dignidade, prazer e honradez. Conheço professores diplomados como mestres e doutores, mas que não possuem a capacidade afetiva, didática e corajosa com seus alunos. Médicos que possuem aversão de seus pacientes e que reclamam de cumprir a carga horária de trabalho contratual. Basta olhar os grevistas em Caxias do Sul e o abandono das UBS de nossa cidade. Engenheiros que não conseguem ir além do seu mundo de esquadros e cálculos. Enfim, os profissionais existem não para servir a si mesmos, mas para servir ao coletivo, à sociedade. E se você não tem esse entendimento, porque acha que sua classe social é mais importante do que as outras, ou que o vestibular é a porta de entrada para o seu sucesso, meu amigo, cuidado! Certamente você já está fadado ao fracasso.

Reflito e analiso muito a postura do IENH. Em nota, a escola pediu desculpas pelo “mal-entendido”. Como assim? Já dizia nosso querido Paulo Freire: “todo projeto pedagógico é um ato político”. Não existe a possibilidade de uma neutralidade neste caso. Está muito clara a intenção dessa atividade. Finalizo com o pensamento de Leandro Karnal em suas redes sociais: “Queria tranquilizar a tanta gente que se preocupa se os professores de humanas transformaram os alunos em militantes de esquerda. Observem as fotos na internet e durmam tranquilos. Nenhuma mudança social deriva de um projeto escolar que, depois de doze anos de ensino médio e fundamental, consegue ter essa ideia ruim. E se tudo der errado no Brasil? Teremos o Brasil como ele é…”

Se nada der certo?

Bem… por aqui continuarei a inspirar-me na Tia Inês. Ela sabe como deixar a vida melhor para aqueles que a cercam!

Profª Ana Cristina Pütten – Licenciada em História pela Universidade Luterana do Brasil – ULBRA; Especialista em Gestão Educacional pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM; Especialista em Mídias na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG; Especialista em Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Cursista na Especialização em Educação: Espaços e Possibilidades para a Formação Continuada pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense. Coordenadora Pedagógica do Colégio Mutirão Máster e Professora das Ciências Humanas e suas tecnologias na mesma unidade escolar

 

 

A Teoria de Controle e o Estudo de Matrizes

Sem título

Por Fábio de Oliveira Brondani

No material didático de Matemática II da Educação de Jovens e Adultos, especificamente no módulo II, é abordado um tema bastante utilizado na Matemática em geral, o estudo de Matrizes. Basicamente, esse conceito surgiu aproximadamente no séc. II a.C., mas por algum motivo, não foi aprofundado. E, somente, no final do séc. XVII e meados do séc. XVIII, voltou a reaparecer e, ainda hoje, possibilita a conclusão de resultados fantásticos.

É de conhecimento de todos que, uma matriz nada mais é que uma tabela, composta por linhas (horizontais) e colunas (verticais), sendo que cada elemento dessa tabela pertence a uma única linha e a uma única coluna. Como exemplos, pode-se citar as planilhas do Excel, tabelas de classificação de um campeonato de futebol, o boletim de desempenho escolar, entre tantos outros.

O início deste estudo está intimamente relacionado com a tentativa de resolução de sistemas lineares. Os babilônios estudaram problemas que levam a resolução de sistemas lineares com duas equações e duas variáveis. Mas, foram os chineses que se aproximaram mais do conceito de Matriz. Uma prova disso pode ser encontrada no texto “Os Nove Capítulos da Arte Matemática”, escrito na dinastia Han, em que aparecem alguns exemplos relacionados a este tema. No entanto, o objetivo deste artigo não é resgatar fatos históricos relacionados ao surgimento desse conceito, mas sim, apresentar uma aplicação bem recente dele, conhecida como Teoria de Controle.

A Teoria Matemática de Controle ou simplesmente Teoria de Controle é largamente aplicada na área da Engenharia. Historicamente, as ideias de sistemas de controle estão presentes desde a Grécia Antiga. Mas a Teoria de Controle tem como marco inicial, a publicação do trabalho “On Governors” de James C Maxwell, em 1868, um importante artigo científico que trata de um regulador centrífugo, isto é, um dispositivo que controla a velocidade de rotação de uma máquina de forma a manter a velocidade constante, independentemente da carga mecânica ou das condições de operação. Por exemplo, pode-se citar as máquinas a vapor, onde se regula a admissão de vapor nos cilindros. Cabe ressaltar que para a época, essa descoberta foi considerada um grande avanço, visto que antes da Revolução Industrial, as máquinas que predominavam na indústria eram a vapor.

Com a publicação desse resultado, muitos cientistas da época começaram a ter interesse por esse assunto e passaram a obter resultados significativos sobre ele, mas nas décadas de 1960 e 1970 houve um grande desenvolvimento de uma teoria estrutural dos sistemas de controle. Nessa teoria, os conceitos de controlabilidade e observabilidade tornaram-se conceitos-chaves. A partir desses conceitos, a indústria tecnológica começou a se desenvolver de forma impressionante, houve um avanço no que diz respeito a lançamentos de satélites e foguetes, um grande desenvolvimento da robótica, bem como a modalidade de piloto automático nos aviões em geral. Tudo devido ao fato de que a Teoria de Controle busca estudar, basicamente, a estabilidade.

Toda essa teoria, que é muito recente, foi construída tendo como base a Teoria de Matrizes. É claro que é um estudo aprofundado, mas tudo começa com definições que a apostila do curso, no referido módulo, aborda. Ou seja, operações de matrizes e cálculo de determinantes. Logo, a ideia que se ouve, frequentemente, sobre inaplicabilidade dos conhecimentos estudados, nas aulas de Matemática em geral, não se aplica. Como se pode ver, conceitos que geralmente não se confere a devida importância podem ser peças-chaves para a resolução de problemas, podendo inclusive transformar o mundo.

Portanto, pode-se dizer que o desenvolvimento tecnológico mundial está relacionado de forma bem íntima com o desenvolvimento da Matemática, como é o caso da Teoria de Controle. Ela é a ciência que dá suporte a muitas outras e que ajuda a solucionar problemas em geral.

Para concluir, segue a descrição dessa teoria na página do IMPA – Instituto de Matemática Pura e Aplicada:

“A Teoria de Controle tem contribuído de maneira fundamental para o progresso tecnológico em diversas áreas, nas últimas décadas. Ela tem tido um grande impacto mesmo em áreas tais como biologia e economia. A teoria clássica (sistemas de controle automático) tem sido amplamente utilizada na sociedade moderna, desde simples aplicações, como no controle de temperatura de refrigeradores, até em sistemas altamente sofisticados, como em aviões e satélites. Vale salientar, como um marco em aplicação tecnológica, que a Teoria de Controle foi fundamental no sucesso do projeto Apollo, no desenvolvimento dos jatos F-16, e mais recentemente no continuado sucesso do ônibus espacial americano e outros programas espaciais”.

Profº Fábio de Oliveira Brondani – Licenciado em Matemática pela Universidade Federal de Santa Maria UFSM, Especialista em Matemática Aplicada e Computacional pela UCS e Mestre em Matemática pela Universidade Federal de Itajubá – Área de Concentração: Equações Diferenciais Ordinárias. Docente no Colégio Mutirão Máster onde ministra as disciplinas de Matemática e Física.

Referências:

www.impa.br (Acesso em: 13/05/2017)

– Brondani, F., Controle de Ciclos Limites em Sistemas de Controle Lineares em Malha Fechada, 2016.

Um só planeta, um futuro comum: é o desafio do século XXI

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*Por Lisiane Pereira Führ

Hoje, não se tem mais dúvidas de que existe uma mudança em curso ocorrendo a nível global. Nossas pegadas, nossos rastros no planeta deixaram marcas profundas na natureza e no meio ambiente resultando numa alteração climática de amplas consequências, bem como no empobrecimento generalizado de tudo que se refere ao patrimônio natural mundial.

A maior parte dos seres humanos esqueceu que também fazem parte da natureza, e seguimos trilhando nossa marca para o progresso sem olhar para os lados. Sem olhar para o futuro.

É incontestável que a responsabilidade dos países ricos é maior e histórica. E também não é menos verdade que o desenvolvimento precisa se expressar de uma nova forma. Mas qual é o preço que devemos pagar por esse desenvolvimento, por esse progresso?

Chaminés e veículos, símbolos do século XX, agora mostram o terrível outro lado da moeda: o aquecimento global. A emissão de gases provenientes do nosso progresso alterou a química do céu, destruindo a camada de ozônio em algumas regiões do planeta e piorando o aquecimento global.

Como algumas sociedades encontram-se engajadas em programas ambientais para minimizar as consequências desses avanços sociais, as empresas estão se vendo obrigadas a cada vez mais melhorarem seus produtos sem que haja prejuízo ambiental.

Mas, é possível, que uma empresa que usa química intoxicante proclame-se sustentável, como é o caso dos fabricantes de cigarros? Isso acontece porque não nos inteiramos de como são feitos alguns produtos que usamos em nosso cotidiano. Somos vítimas vivas e passivas de um processo de intoxicação em larga escala.

Pode um governo que aposta todas as suas fichas na exploração de combustível fóssil professar a sustentabilidade? Os gases do efeito estufa, provenientes da queima de combustíveis fósseis, são os principais causadores do efeito estufa e dos desequilíbrios no clima. Infelizmente muitas vezes deixamos as questões ambientais de lado para saciar nosso consumismo:

         “O carro continua sendo, depois da mulher ou depois do homem, a paixão do ser humano. Quem já tem, quer trocar todo ano; quem não tem, quer ter o primeiro. Às vezes, o cidadão pensa em ter o primeiro carro antes de ter a primeira mulher”.

(SILVA, Luís Inácio Lula da. Brasília, 15 de julho de 2009)

Sustentável não é sinônimo de ser verde em detrimento da variável econômica. Ser sustentável é ser capaz de gerar equilíbrio econômico, ambiental e social, permitindo a continuidade do negócio em longo prazo e não é somente em grandes ações e em grandes empreendimentos que podemos promover a sustentabilidade de forma efetiva, desde as fábricas de fundo de quintal até as multinacionais têm condições de tornarem-se sustentáveis sem prejudicar sua produção.

Um dos ramos empresariais que menos investe nisso é o da indústria farmacêutica e da beleza. E isso pode ser provado se observarmos a maneira como seus produtos são testados antes de serem lançados para venda. Por exemplo:

  • Teste de irritação dos olhos: mede a ação nociva dos ingredientes químicos encontrados em produtos de limpeza e em cosméticos. Os produtos são aplicados diretamente nos olhos dos animais conscientes (mais utilizados: coelhos por serem mais baratos, fáceis de manusear e terem os olhos grandes). Para evitar automutilação, os coelhos são imobilizados, mas não são anestesiados. Embora 72 horas sejam suficientes para a obtenção do resultado, a prova pode durar até 18 dias. As reações observadas incluem processos inflamatórios das pálpebras e íris, úlceras, hemorragias ou mesmo cegueira.
  • Teste de Draize de irritação Dermal: observar reações como sinais de enrijecimento cutâneo, úlceras, edemas. Animal imobilizado enquanto substâncias são aplicadas em peles raspadas e feridas.
  • Teste LD 50 (Lethal Dose 50%): mede toxicidade. O animal ingere a substância a ser testada por meio de uma sonda no estômago e pode levar à morte do animal por perfuração no órgão. Efeitos observados: dores angustiantes, convulsões, diarreia, dispneia, emagrecimento, sangramento nos olhos e boca, lesões pulmonares, renais e hepáticas, coma e morte.

Durante nosso dia a dia, muitas vezes não nos damos ao trabalho de pesquisar sobre os produtos que consumimos, seja pela correria do nosso cotidiano, pela falta de informação ou até mesmo de vontade, estímulo para isso.

Mas, que preço estamos dispostos a pagar por isso? O preço do produto vale os riscos que ele traz para esta e para as próximas gerações? Dramas climáticos atingem a todos. Chuva ácida cai sobre todas as cabeças. Contaminação dos alimentos afeta todas as saúdes. Nada mais democrático que os problemas ambientais. Recaem sobre os ricos, pobres, crianças e idosos, negros, brancos e amarelos. Judeus, protestantes, católicos, budistas, muçulmanos, homens e mulheres. Sobre todos os seres vivos.

*Bacharel e Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), pós graduada em Gestão Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela UNINTER, atua como docente de Biologia e Química no Mutirão Máster. Além de docente, é tutora EaD na mesma instituição.