A Língua Portuguesa pode modificar o nosso modo de viver em sociedade

*Jeferson Carvalho

Sempre quando ministro aulas de língua portuguesa, refiro aos meus alunos a verdadeira importância da efetivação comunicativa, enquanto falantes que somos; no entanto, da mesma maneira, enfatizo que a Língua que escrevemos deve ser estruturada pelas regras vigentes, seguindo preceitos gramaticais e, assim, ser comum a todos. Para tanto, não deve transgredir as normatizações e igualmente ser efetiva.

Nas minhas aulas, conto algumas situações (causos) em que a Língua escrita pode causar algum tipo de constrangimentos ou até mesmo desvios de entendimento entre os interlocutores.

Em janeiro de 2015, uma situação curiosa ocorreu na Paraíba, um cartaz feito por uma loja de eletrodomésticos anunciava: “Oferta imperdível Chip Vivo R$ 1 com aparelho”. Um cliente entrou na loja e pediu quatro aparelhos ao custo de R$ 4,00, porém os funcionários do estabelecimento se negaram a vendê-los, e o caso foi parar na delegacia do município. A verdadeira intenção do cartaz era informar que, na compra de um aparelho celular, o chip daquela operadora de telefonia custaria R$ 1,00. Situações como essa evidenciam a necessidade de se preocupar em estabelecer uma comunicação bem articulada em todas as situações a fim de evitar interpretações equivocadas, independentemente da área em que se atua.

Não é raro, nos dias de hoje, depararmo-nos com frases e textos mal escritos, com erros gramaticais e de concordância. Embora a tecnologia tenha facilitado o dia a dia das pessoas, com a expansão da internet, os “tropeços” na língua portuguesa tornaram-se mais habituais, o que antes ficava apenas na fala, agora se intensificou na escrita. Pare para avaliar isto um instante: é muito provável que você já tenha recebido um e-mail confuso e visualizado erros bárbaros relacionados à língua portuguesa em uma apresentação de slides ou nas redes sociais.

Assim como o cuidado com a escrita é imprescindível, essencial também é estar atento à linguagem oral. Costumeiramente, as pessoas se confundem no emprego de certos termos da língua portuguesa, entre os clássicos estão “mortandela” ao invés de mortadela; “mendingo” para mendigo; “iorgute” no lugar de iogurte; e “vasculhante” ao invés de basculante. Em um universo composto por pessoas cada vez mais críticas, ao pronunciar expressões como essas, a atenção é desviada e, com isso, a credibilidade e a inteligência são colocadas à prova, principalmente no âmbito profissional.

Todas essas situações demonstram que estar atento ao português não deve ser exclusividade dos profissionais da área de comunicação. Embora a expressão língua portuguesa pareça estar relacionada apenas a uma disciplina, ela está presente em todos os âmbitos e, quando bem dominada, pode facilitar situações do dia a dia – entre elas a interpretação de problemas matemáticos ou de raciocínio lógico, além da correta compreensão do que as pessoas falaram ou escreveram. Preocupar-se em estudar a língua portuguesa ao longo da vida permite desfrutar dos benefícios do conhecimento e minimiza as chances de cometer deslizes que podem ser irremediáveis. Use a língua portuguesa como se fosse uma roupa(gem), em que, a partir da escola das palavras e da situação (formal ou informal), não haja prejuízo para a comunicação e, principalmente, para sua imagem pessoal.

Referências

  • BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz (1999);
  • Paulo Freire. Extensão ou comunicação?. Paz e Terra, 2001. ISBN 978-85-219-0427-4.
  • VILARINHO, Sabrina. “Semântica”; Brasil Escola. Disponível em: <http://brasilescola.uol.com.br/portugues/semantica.htm>. Acesso em: 10 de novembro de 2017.

*Professor  Jeferson Carvalho é licenciado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS/RS0 e tem especialização em Leitura e Dinâmica de Aprendizagem pela mesma universidade. É professor do Mutirão EJA,  preparatórios para concursos e oficinas de Redação.  

O ensino de Língua Portuguesa

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*Por Alessandra Pozzer

O ensino de Língua Portuguesa vem sofrendo mudanças há alguns anos. Nessas transições, a gramática normativa foi deixada de lado para abrir espaço para o estudo dos usos da língua a partir do texto. Como bem colocam os Parâmetros Curriculares Nacionais e os Referenciais Curriculares do Rio Grande do Sul, a língua é a representação da cultura e viabiliza a expressividade. É por esse motivo que o Português e a Literatura são trabalhados em uma mesma disciplina no Ensino Fundamental.

Dessa forma, os professores de Língua Portuguesa utilizam o texto para direcionar seu trabalho e, a partir dele, analisar os usos da língua. É por esse motivo que Antunes (2010, p. 45) defende que, na análise de textos, tudo deve estar relacionado ao entendimento global do que é dito. Os estudos sobre os usos da língua devem partir do sentido do texto, por isso devemos nos perguntar: no que os recursos gramaticais e sintáticos contribuem para o sentido do texto?

Antunes (2010, p. 46) ainda coloca que o ensino de Português deve centrar-se na análise de textos e não em frases soltas, nas quais não cabem os princípios de funcionamentos da língua. É preciso levar em consideração o papel que a frase desempenha no texto, no que ela contribui para a compreensão do que está sendo dito, e perceber que ela pertence a um contexto comunicativo, não sendo possível isolá-la para estudo.

Para Antunes (2010, p. 47), quando falamos, ouvimos, lemos ou escrevemos, não produzimos frases soltas. Elas fazem parte de um contexto e, por isso, a análise de frases é descartada pelo ensino de língua, e a importância de se trabalhar com textos cresce cada vez mais. Deste modo, se o aluno trabalhar com frases soltas, ele não desenvolverá sua capacidade de produzir um texto com sentido ou coerência, menos ainda ampliará sua capacidade de entender textos de diferentes gêneros, sejam eles simples ou complexos.

Assim, as aulas de português devem girar em torno da análise de textos, que permitem a construção de modelos que evidenciam como os textos são constituídos e funcionam. Conforme Antunes (2010, p.49), conhecer esses modelos é essencial para a ampliação das competências comunicativas, já que nos comunicamos somente através de textos. As palavras existem em função do sujeito que faz uso delas, que pode produzir ilimitados enunciados. No texto, é isso que deve ser analisado e os alunos são levados a tomar consciência das inúmeras possibilidades que a língua oferece.

Antunes (2010, p. 50-52) aponta as seguintes finalidades para a análise dos textos nas aulas de Língua Portuguesa: promover o desenvolvimento de diferentes competências comunicativas; ampliar as capacidades de compreensão; desenvolver a capacidade de perceber as propriedades, as estratégias, os meios, os recursos, os efeitos, enfim, as regularidades implicadas no funcionamento da língua; desenvolver a capacidade de perceber, de enxergar, de identificar os fenômenos que ocorrem no texto; entender melhor certos aspectos dos processos cognitivos, linguísticos, textuais e pragmáticos envolvidos em nossas interações verbais.

Uma das maneiras de suscitar esses conhecimentos em nossos alunos é através dos questionamentos sobre o texto, nos quais é necessário explorar certos pontos que contribuirão para uma melhor compreensão do que está sendo dito e para que os estudantes percebam as possibilidades da língua.

Ferrarezi (2008, 165-210) aponta vários tópicos que estão presentes nas interações verbais, sejam elas orais ou escritas. Um deles é a polissemia, ou seja, a capacidade de um mesmo sinal gráfico assumir diferentes sentidos, aumentando suas possibilidades de uso. Esse sinal irá variar de acordo com o contexto e o cenário em que são empregados. Há também os sentidos que vão além do que foi abertamente dito, os chamados implícitos. Em uma análise, precisamos perceber os sentidos implícitos, que podem ser simples, dados como insinuações, ou mais complexos, nos quais são necessárias informações do cenário e o nosso conhecimento cultural para interpretá-los de acordo com o objetivo da pessoa que o proferiu.

Outro elemento apontado pelo autor é a ambiguidade, que é a possibilidade de um mesmo falante atribuir mais de um sentido a uma mesma sentença em um mesmo contexto e cenário. A negação é um tópico que vai além dos advérbios de negação. Ela pode ser sutil em um texto, definindo seu sentido. Como exemplo temos pedacinhos de palavras ou palavras inteiras com sentido de negação, certos tipos de afirmação, a ironia, alguns exageros e até o silêncio podem significar a negação de algo.

Ferrarezi afirma que nos clichês consta o registro do desenvolvimento cultural de uma região. É preciso conhecer a cultura onde determinada expressão idiomática ou frase feita é usada para poder utilizá-la com seu real sentido, ou compreendê-la quando aparecer em um texto. Como último tópico apontado pelo autor tem-se a metáfora, isto é, a utilização de uma expressão que apresenta um sentido costumeiro com outro sentido diverso daquele comumente conhecido. Tem como função suprir a necessidade de expressar sentidos para os quais não há expressões específicas na língua.

Para que o aluno perceba todas essas possibilidades da língua e muitas outras, se torna necessário compreender a análise de textos, como esclarece Antunes (2010, p.49):

[…] analisar textos é procurar descobrir, entre outros pontos, seu esquema de composição; sua orientação temática, seu propósito comunicativo; é procurar identificar suas partes constituintes; as funções pretendidas para cada uma delas, as relações que guardam entre si e com elementos da situação, os efeitos de sentido decorrentes de escolhas lexicais e de recursos sintáticos. É procurar descobrir o conjunto de suas regularidades, daquilo que costuma ocorrer na sua produção e circulação, apesar da imensa variedade de gêneros, propósitos, formatos, suportes em que eles podem acontecer.

Antunes (2010, p. 52) afirma que a atualidade exige pessoas capazes de atuar socialmente, com competência para a desenvoltura e que saibam se expressar com clareza e consistência nas mais variadas situações sociais. Isso mostra porque a escola e, principalmente, as aulas de Língua Portuguesa, devem reformular suas práticas, realizando-as a partir de textos e analisando-os à luz das novas teorias. Dessa forma, a metodologia irá mudar e o ensino de Português atingirá o objetivo que se espera dele: preparar o indivíduo para a efetiva inserção e participação na sociedade atual.

*Professora Alessandra Pozzer. Graduada em Letras pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) e pós-graduada em Metodologia e Ensino da Língua Portuguesa pela Uninter. Professora do Mutirão Farroupilha e rede estadual de ensino. 

Referências

ANTUNES, Irandé. Análise de textos: fundamentos e práticas. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do Ensino fundamental- Língua Portuguesa. Brasília: Ministério da Educação, 1998.

FERRAREZI JUNIOR, Celso. Semântica para a educação básica. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

FONTANA, N. M.; PAVIANI, N. M. S.; PRESSANTO, I. M. P. Práticas de linguagem: gêneros discursivos e interação. Caxias do Sul: Educs, 2009.

Rio Grande do Sul. Secretaria de Estado da Educação. Departamento Pedagógico. Referenciais Curriculares do Estado do Rio Grande do Sul: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias – Língua Portuguesa, Literatura, Língua Estrangeira Moderna (Inglês e Espanhol). Porto Alegre: SE/DP, 2009. v. 1.