O QUE A SALA DE AULA REPRESENTA PARA ESTA PROFESSORA?

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* Por Márcia Toigo Angonese

Como docente de Biologia e de Química, eu vivo diariamente em sala de aula e tenho, em minha bagagem, experiências fantásticas de muita partilha de conhecimentos junto aos alunos da EJA Mutirão.

A sala de aula não é só um espaço físico de paredes e de classes, de móveis e de pessoas passivas. Percebo que esse espaço é, na verdade, nobre de oportunidades, de aprendizagens, de conhecimentos, de afetos e de trocas. Nesse lugar especial, os alunos não só aprendem assim como o professor não somente ensina.

A sala de aula é um lugar de experiências humanas, onde cada aluno que ali está tem sempre uma história pra te contar, um fato a relatar, e isso tudo enriquece as aulas de maneira incrível.

Percebo isso com grande ênfase quando trabalho com eles “Os sistemas do corpo humano”. Essa aula me enche de grandeza e de entusiasmo pelo que faço, pois existe um envolvimento grande de todos, que trazem, para o espaço da sala de aula, fatos e histórias de suas vidas.

Um dos temas mais interessante que apresento para as turmas é sobre o cuidado com a nossa saúde, com a nossa alimentação e a prevenção da diabetes. Para que o tema seja interessante para todos, busco sempre abrir um canal de comunicação, onde os alunos possam trazer suas experiências com o intuito de enriquecer o debate.

Compartilho, logo a seguir, alguns relatos dos alunos da turma M176 (EJA/noturno) referentes às aulas de Biologia/corpo humano.

 “Para mim foi muito importante o conhecimento de nosso próprio corpo. Foi bom aprender sobre o que nos deixa doente e o que podemos fazer para prevenir doenças. Essas aulas foram muito boas, pois todos participaram, interagindo em aula. Com isso, todos aprenderam. ”

 “Eu, particularmente, pelo fato de ter atrite; com as aulas, comecei a me preocupar muito mais com a saúde e com o cuidado do meu corpo. Essas aulas prenderam minha atenção. Eu sempre faço perguntas; e a professora sempre me responde. Mesmo depois, em casa, fico sempre lendo sobre a matéria. ”

“Gostei de ter aula de Biologia, porque eu estava com dúvidas sobre fazer ou não um curso de socorrista, pois eu não sabia o que fazer. Para mim foi muito importante essa aula. ”

 “Foi uma aula muito importante, interessante, com muitos debates sobre temas trazidos por nós alunos em sala de aula. Uma observação é o fato de termos pouco tempo de aula para um conteúdo que levamos para a vida inteira. ”

 “Para mim, as aulas foram muito importantes, pois aprendi muito. Eu sempre tive muitas dúvidas e curiosidades sobre o corpo humano…”

O que esse espaço-sala representa é um ambiente onde fomos capazes de ouvirmos e de sermos ouvidos. Nos tempos modernos em que tudo é realizado por máquinas, celulares e computadores em um “mundo virtual”, o momento de trocas numa sala de aula física, real, é algo incrivelmente importante, a fim de mantermos uma relação, ainda que breve, de estar presente naquele momento, o que é uma relação mais humana de partilha. Independentemente dos tipos de personalidades, de idades, de raças, ou seja, seja qual for a sua criação, é favorável que as relações sejam regadas por um solo que acondicione a troca de saberes entre alunos e professor, professor e alunos, alunos e alunos. Considerando-se, nesse sentido, professor e alunos como atores sociais, enfatiza-se a análise das situações em que eles se veem envolvidos no seu cotidiano (Sirota, 1994).

Percebo que esse sentir, nesse ambiente de sala de aula, é regado pela empatia que tenho por todos ali presentes, acolhendo a cada um, aceitando suas diferenças, suas peculiaridades, suas identidades. Isso torna as aulas muito prazerosas para ambos os lados.

A escuta ativa e o incentivo do potencial positivo também são características que marcam muito esse ambiente da sala de aula. E é nele que coloco em prática esse conselho de Cortella: “Elogia em público, corrija em particular. Um sábio orienta sem ofender e ensina sem humilhar.” Isso auxilia muito no processo de ensino e aprendizagem desses alunos. Esse espaço-sala é, sem dúvida, a pura expressão de cada um que ali passa e deixa sua marca (Freire).

“O professor autoritário, o professor licencioso, o professor competente, o professor sério, o professor incompetente, o professor irresponsável, o professor amoroso da vida e das gentes, o professor mal-amado, o professor sempre com raiva do mundo e das pessoas, o professor frio, o professor burocrático, o professor racionalista, nenhum deles passa pelos alunos sem deixar sua marca” (FREIRE, 2002, p.73).

Cada um presente no espaço-sala deixa um pouco de si e leva outro tanto para si. Todos, enfim, acabam compartilhando e contribuindo para um aprendizado mais próximo das suas realidades.

Referências:

FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

FREIRE, (2002), op. cit., p. 73.

RESENDE, Tânia de Freitas. No interior da “caixa preta”: um estudo sociológico das interações em sala de aula. In: GT Sociologia da Educação /n.14, 2004.

SIROTA, Régine. A escola primária no cotidiano. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

* Prof.ª Marcia Toigo Angonese – Licenciada em Ciências Biológicas. Professora de Biologia e Química do Colégio Mutirão Máster.    

Os benefícios dos produtos orgânicos para a saúde humana e meio ambiente

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* Por Fabiane Menegotto

Os produtos orgânicos são cultivados sem a utilização de agrotóxicos, adubos químicos ou outras substâncias tóxicas, evitando assim a contaminação do meio ambiente e principalmente dos alimentos produzidos. Desta forma, a agricultura orgânica busca preservar a biodiversidade, garantir os ciclos e as atividades biológicas do solo, preservar os lençóis freáticos e tratar os ecossistemas com mais equilíbrio.

O Ministério da agricultura (2017) informa em seu site que o objetivo principal da produção de produtos orgânicos é promover a qualidade de vida com proteção ao meio ambiente.  “O uso indiscriminado de agrotóxicos pode comprometer a qualidade da água para abastecimento, o solo, os alimentos e a manutenção da vida aquática selvagem. Isso ocorre porque eles alcançam os recursos hídricos ao serem aplicados sobre superfícies inclinadas, pois, quando chove, as águas arrastam as partículas dos compostos dos agrotóxicos contidos nos solos tratados, poluindo rios, lagos e mares.” (Fogaça, 2016).

Um produto só pode ser considerado orgânico se for cultivado respeitando às leis e passando pelos processos de certificação. Além destas normas de produção, o comércio de produtos orgânicos também é regulamentado pelo governo federal, e esse controle depende da relação de confiança entre produtores e consumidores e dos sistemas de controle de qualidade. A ANVISA (2001), Agência Nacional de Vigilância Sanitária, iniciou um Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), com o objetivo de avaliar continuamente os níveis de resíduos de agrotóxicos nos alimentos que são consumidos pela população.

As pessoas cada vez mais se tornam cientes dos malefícios que os agrotóxicos nos alimentos oferecem para sua saúde, e gradativamente começam a buscar alternativas para uma alimentação mais saudável. E é neste contexto que os alimentos orgânicos, com seu apelo ambiental e sendo saudáveis, vem sendo uma opção de mudança de hábito de vida.

Uma vez que a produção de produtos orgânicos é promover a qualidade de vida, há também uma preocupação com a proteção do meio ambiente. Sua principal característica é não utilizar agrotóxicos, adubos químicos ou qualquer tipo de substância sintética que agridam o ecossistema. Um alimento orgânico contempla o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais.

Um estudo da ABRASCO (2015), Associação Brasileira de Saúde Coletiva, informa que o brasileiro consome em média 12 litros de agrotóxicos por ano e afirma que houve um crescimento de 288% no uso de agrotóxicos no Brasil entre os anos de 2000 a 2012. Este estudo revelou ainda, que esses alimentos estão contaminados por substâncias não permitidas para o cultivo ou ultrapassaram o limite máximo aceitável de pesticidas. O que prejudica a saúde humana e degrada o ambiente alterando a composição da flora e fauna.

“O trabalho agrícola é uma das ocupações mais perigosas da atualidade. Dentre os vários riscos ocupacionais, destacam-se os agrotóxicos, que estão relacionados a intoxicações agudas, doenças crônicas, problemas reprodutivos e danos ambientais.” (Abrasco, 2015)

Os problemas causados por intoxicação de agrotóxicos vão desde tonturas, cólicas abdominais, náuseas, vômitos, dificuldades respiratórias, irritações no nariz, garganta e olhos. Até problemas mais graves, como tumores, convulsões e paralisias, podendo levando à morte.

A mudança de implantação da alimentação orgânica, no dia a dia de cada um, beneficiaria não só a saúde das pessoas, bem como a manutenção dos recursos naturais. Reduzir os danos causados ao meio ambiente com atitudes simples é uma forma de preservar o meio ambiente.  Consumir alimentos produzidos sem agrotóxicos e de forma sustentável promovendo a qualidade de vida é uma forma de amenizar os danos causados ao ecossistema. Afinal, preservar o meio ambiente é fundamental para manter a saúde do planeta e de todos os seres vivos que moram nele.

Fabiane Menegotto é  licenciada em Ciências Biológicas – Habilitação em Química, Física e Matemática pela Universidade de Caxias do Sul – UCS/RS e atua como professora do Mutirão Farroupilha.

Referências

ABRASCO. Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde.

Disponível em: http://www.abrasco.org.br/dossieagrotoxicos/wp-content/uploads/2013/10/DossieAbrasco_2015_web.pdf. Acessado em: 19/07/2017

ANVISA. Agrotóxico. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/agrotoxicos . Acesso em 19/07/2017

FOGAÇA, Jennifer Rocha Vargas. Poluição das águas por rejeitos da agricultura; Brasil Escola. Disponível em: http://brasilescola.uol.com.br/quimica/poluicao-das-aguas-por-rejeitos-agricultura.htm. Acesso em 21/07/2017

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA. Produtos orgânicos. Disponível em: http://www.agricultura.gov.br/assuntos/sustentabilidade/organicos/o-que-sao-organicos  Acesso em 19/07/2017

 

Educar o olhar para ver o meio ambiente como inteiro

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*Por Márcia Toigo Angonese

“Isto sabemos. Todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família… Tudo o que acontece com a Terra, acontece com os filhos e filhas da Terra. O homem não tece a teia da vida; ele é apenas um fio. Tudo o que faz à teia, ele faz a si mesmo.” –  TED PERRY, inspirado no Chefe Seatle

Quando entro em uma sala de aula para falar sobre ecologia, relações intraespecífica ou interespecífica e relação do homem com o meio ambiente, sempre compartilho desta visão que tenho de nós SERES HUMANOS:

“Nós, seres humanos, estamos fazendo estágio para ser verdadeiramente Humanos.”

Pois nossas atitudes e forma de agir aqui, nesta biosfera, nos faz pensar desta forma. Esta constatação vem de um olhar para este Humano (nós) e como se relacionam com o meio ambiente em que vivem.  Muitos nem se quer param para pensar que não somos separados deste meio e sim somos e fazemos parte desta inter-relação com todos os seres vivos.

Somos sim, um dos fios desta grande teia, a teia da vida. Precisamos ser mais conscientes e ter mais responsabilidade com as ações que praticamos, sejam elas com seres da mesma espécie, humano para com o humano, sejam de espécies diferentes.

Parafraseando Fritjof Capra “Ecologia profunda vê o ser humano inserido nela e não situado acima ou fora dela”.

Não podemos nos perceber fora deste ambiente onde o ambiente sempre é olhado como algo diferente dos humanos. Então, como educadora da área de Ciências Biológicas, sinto que compartilhar deste olhar, deste sentir, por menor que seja poderá trazer um lampejo de luz para com nossos alunos.

Somos seres em constante evolução, assim como tudo no universo. Engano nosso acreditar que já estamos perfeitos, estamos prontos, o caminho é de aprendizagem e aprimoramento constante até chegarmos quem sabe um dia à perfeição.

Quando nosso olhar estiver treinado a ver tudo por inteiro e não fragmentado ou desconectado, neste momento nos tornaremos consciente de fato e germinará dentro de cada pessoa, um ser mais íntegro, mais verdadeiro com as leis da natureza. Será neste momento que passaremos de estagiários neste processo evolutivo para verdadeiramente “Seres Humanos”, humanos por inteiros.

* Prof.ª Marcia Toigo Angonese –  Licenciada em Ciências Biológicas. Professora de Biologia e Química do Mutirão Máster.    

 Referência

CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Editora Cultrix São Paulo, 1996.

 

 

Um só planeta, um futuro comum: é o desafio do século XXI

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*Por Lisiane Pereira Führ

Hoje, não se tem mais dúvidas de que existe uma mudança em curso ocorrendo a nível global. Nossas pegadas, nossos rastros no planeta deixaram marcas profundas na natureza e no meio ambiente resultando numa alteração climática de amplas consequências, bem como no empobrecimento generalizado de tudo que se refere ao patrimônio natural mundial.

A maior parte dos seres humanos esqueceu que também fazem parte da natureza, e seguimos trilhando nossa marca para o progresso sem olhar para os lados. Sem olhar para o futuro.

É incontestável que a responsabilidade dos países ricos é maior e histórica. E também não é menos verdade que o desenvolvimento precisa se expressar de uma nova forma. Mas qual é o preço que devemos pagar por esse desenvolvimento, por esse progresso?

Chaminés e veículos, símbolos do século XX, agora mostram o terrível outro lado da moeda: o aquecimento global. A emissão de gases provenientes do nosso progresso alterou a química do céu, destruindo a camada de ozônio em algumas regiões do planeta e piorando o aquecimento global.

Como algumas sociedades encontram-se engajadas em programas ambientais para minimizar as consequências desses avanços sociais, as empresas estão se vendo obrigadas a cada vez mais melhorarem seus produtos sem que haja prejuízo ambiental.

Mas, é possível, que uma empresa que usa química intoxicante proclame-se sustentável, como é o caso dos fabricantes de cigarros? Isso acontece porque não nos inteiramos de como são feitos alguns produtos que usamos em nosso cotidiano. Somos vítimas vivas e passivas de um processo de intoxicação em larga escala.

Pode um governo que aposta todas as suas fichas na exploração de combustível fóssil professar a sustentabilidade? Os gases do efeito estufa, provenientes da queima de combustíveis fósseis, são os principais causadores do efeito estufa e dos desequilíbrios no clima. Infelizmente muitas vezes deixamos as questões ambientais de lado para saciar nosso consumismo:

         “O carro continua sendo, depois da mulher ou depois do homem, a paixão do ser humano. Quem já tem, quer trocar todo ano; quem não tem, quer ter o primeiro. Às vezes, o cidadão pensa em ter o primeiro carro antes de ter a primeira mulher”.

(SILVA, Luís Inácio Lula da. Brasília, 15 de julho de 2009)

Sustentável não é sinônimo de ser verde em detrimento da variável econômica. Ser sustentável é ser capaz de gerar equilíbrio econômico, ambiental e social, permitindo a continuidade do negócio em longo prazo e não é somente em grandes ações e em grandes empreendimentos que podemos promover a sustentabilidade de forma efetiva, desde as fábricas de fundo de quintal até as multinacionais têm condições de tornarem-se sustentáveis sem prejudicar sua produção.

Um dos ramos empresariais que menos investe nisso é o da indústria farmacêutica e da beleza. E isso pode ser provado se observarmos a maneira como seus produtos são testados antes de serem lançados para venda. Por exemplo:

  • Teste de irritação dos olhos: mede a ação nociva dos ingredientes químicos encontrados em produtos de limpeza e em cosméticos. Os produtos são aplicados diretamente nos olhos dos animais conscientes (mais utilizados: coelhos por serem mais baratos, fáceis de manusear e terem os olhos grandes). Para evitar automutilação, os coelhos são imobilizados, mas não são anestesiados. Embora 72 horas sejam suficientes para a obtenção do resultado, a prova pode durar até 18 dias. As reações observadas incluem processos inflamatórios das pálpebras e íris, úlceras, hemorragias ou mesmo cegueira.
  • Teste de Draize de irritação Dermal: observar reações como sinais de enrijecimento cutâneo, úlceras, edemas. Animal imobilizado enquanto substâncias são aplicadas em peles raspadas e feridas.
  • Teste LD 50 (Lethal Dose 50%): mede toxicidade. O animal ingere a substância a ser testada por meio de uma sonda no estômago e pode levar à morte do animal por perfuração no órgão. Efeitos observados: dores angustiantes, convulsões, diarreia, dispneia, emagrecimento, sangramento nos olhos e boca, lesões pulmonares, renais e hepáticas, coma e morte.

Durante nosso dia a dia, muitas vezes não nos damos ao trabalho de pesquisar sobre os produtos que consumimos, seja pela correria do nosso cotidiano, pela falta de informação ou até mesmo de vontade, estímulo para isso.

Mas, que preço estamos dispostos a pagar por isso? O preço do produto vale os riscos que ele traz para esta e para as próximas gerações? Dramas climáticos atingem a todos. Chuva ácida cai sobre todas as cabeças. Contaminação dos alimentos afeta todas as saúdes. Nada mais democrático que os problemas ambientais. Recaem sobre os ricos, pobres, crianças e idosos, negros, brancos e amarelos. Judeus, protestantes, católicos, budistas, muçulmanos, homens e mulheres. Sobre todos os seres vivos.

*Bacharel e Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), pós graduada em Gestão Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela UNINTER, atua como docente de Biologia e Química no Mutirão Máster. Além de docente, é tutora EaD na mesma instituição.

Mutirão entrevista: Volnei Flávio Soldatelli

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Bacharel em Oceanologia pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Volnei Flávio Soldatelli dedica 29  anos de sua trajetória ao ensino. Mestre em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), atua como Professor Universitário, de Pré-Vestibular e Ensino Médio. No Colégio Mutirão Objetivo, leciona a disciplina de Biologia.

Nascido em São Marcos (RS), o discípulo de Jacques Costeau é autor das obras  “A Amazônia que conheci com  Jacques-Yves Cousteau”, “Vida, amor, educação, seus caminhos….”, “Vida, amor, educação e seus novos caminhos”, “A Vida no Planeta Azul”, “Operação Amazônia” e “A Amazônia que Conheci a Bordo do Calypso de Cousteau”. 

Nesta entrevista, vamos conhecer a trajetória deste dedicado professor que em 2007 foi eleito um dos 20 melhores professores da Universidade de Caxias do Sul. “Como professor educador, devo supor que o currículo que prescrevo para  os jovens os prepara, não só para um mundo mecânico, técnico, complexo e em constante mudança, mas também para seu bom relacionamento com outros seres humanos e com a vida que os cerca” destaca Volnei.

 Como foi sua “escolha” pela Oceanologia? Sabemos que é uma profissão que ainda hoje não é tão comentada, mas de extrema importância para a manutenção e sobrevivência das espécies marinhas em um planeta onde a interferência do homem nos sistemas é cada vez maior e mais prejudicial.

 Desde criança, sabia que queria estudar algo que se referisse à natureza, pois ela é a grande fonte de harmonia, equilíbrio, paz, sabedoria e inspiração. Quando ouvi a voz de meu coração sabia que esses fatores norteariam a minha vida, e que neles encontraria um significado maior para a minha vida.

O senhor “embarcou” direto, no Calypso de Cousteau, na “Operação Amazônia”, ou passou um tempo se preparando? Após a conclusão do curso superior, quais foram suas experiências profissionais? Conte-nos um pouquinho da sua trajetória de vida.

Na verdade, minha história, começa, assim: “Num certo dia dos meus 15 anos de idade, ao assistir na TV ao “O mundo submarino de Jacques Cousteau”, disse para a minha mãe: “Sabe, mãe, um dia trabalharei a bordo desse navio de pesquisas (Calypso) junto com esse pesquisador (Jacques-Yves Cousteau)”. Ao ouvir isso, minha mãe disse: “Ah é, meu filho?! Que bom!”. Afinal de contas, o que poderia a mãe de um garoto de 15 anos dizer a seu filho, que afirmara querer trabalhar a bordo do principal navio oceanográfico do mundo, com nada mais nada menos do que o Comandante Cousteau? Pois, sete anos mais tarde, para aquele garoto do interior o que era apenas um sonho tornou-se realidade. Meu projeto científico denominado “Levantamento Preliminar do Microfitoplâncton das Águas Claras do rio Tapajós, Pará, Brasil”, seria um dos cinco projetos brasileiros a serem aprovados pela Cousteau Society e pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) para participar da “Operação Amazônia” junto à equipe de Cousteau.

No dia 5 de dezembro de 1982, partíamos num zodíac de Cousteau, desde o porto de Santarém, eu e meu colega Adalto Bianchini, em direção ao Calypso. Começava, assim, a nossa grande e inesquecível aventura a bordo daquele verdadeiro “símbolo dos mares”. Quando chegamos ao Calypso, fomos recebidos pela família Cousteau: Jacques-Yves, sua mulher, Simone, e seu filho, Jean-Michel.

Ao cumprimentar-me, Cousteau questionou-me sobre a presença do plâncton – organismos de natureza animal ou vegetal que flutuam passivamente ao sabor das águas– no rio Tapajós. Então, apontei em direção à popa do Calypso e mostrei-lhe as imensas manchas verdes formadas pelo fitoplâncton (microalgas) que coloriam as águas claras daquele rio. Ao olhar novamente para aquele fenômeno, Cousteau impressionou-se, pois estava acostumado a presenciar esse fenômeno nos mares e não nas águas de rios. Nosso fascínio por aquele fenômeno era comum e, com isso, o rio Tapajós começava a mostrar-nos por que é considerado o mais belo rio amazônico e um dos mais exuberantes do Brasil e do mundo.”

Em julho de 1986, fomos convidados para proferir uma palestra, na Universidade de Caxias do Sul (UCS), sobre nossa experiência na “Operação Amazônia”. Ela foi comovedora e inesquecível, o que me rendeu um convite, em outubro, para que, assim que me formasse, lecionasse para o Curso de Biologia dessa Universidade. Em março de 1987, comecei a trabalhar na UCS, e em outubro, do mesmo ano, surgiu o convite para dar aula no antigo Supletivo do Mutirão. A partir daí, fiz parte de, praticamente, todas as unidades do grupo.

Que lição o senhor tirou do trabalho realizado na “Operação Amazônia” a bordo do Calypso, de Jacques Cousteau? Quanto tempo o senhor ficou embarcado?

Que todo grande sonho pode tornar-se realidade, desde que tenhamos coração e coragem para torná-lo realizável. Que se eu quiser que o mundo mude primeiro tenho que mudar a mim mesmo. Que não podemos nos calar perante o caos que o homem provoca junto a natureza  e que a grita em prol da vida se faz necessário por parte de cada um de nós. Que a ciência deve servir para promover um progresso que traga felicidade e bem-estar ao homem. Era para termos ficado quatorze dias embarcados, porém ficamos seis dias, uma vez que o nível do rio Tapajós estava muito baixo e havia perigo de encalhe do Calypso. Durante esses seis dias, faríamos seis coletas do plâncton desde a confluência do rio Tapajós com o rio Amazonas até a localidade de Alter do Chão.

Qual a maior lição que teve da convivência com Jacques Costeau?

Jacques Cousteau era um homem programado, pois sua agenda diária estava sempre tomada. Durante o tempo que convivemos juntos, deixou-nos transparecer um homem sereno, atencioso, simples, cordial, gentil e bem-humorado.

Todas as manhãs, vestindo uma camisa azul, com quatro canetas num bolso da manga esquerda e com seu gorro vermelho na cabeça, Cousteau entrava no Carré para o seu desjejum: geleia de laranja e torrada. Enquanto tomava café, comentava com seus homens os trabalhos que seriam desenvolvidos naquele dia. Como um verdadeiro comandante, tinha a atenção irrestrita de toda a tripulação.

Certa noite, Jacques Cousteau, tendo ao seu lado madame Cousteau e seu filho Jean-Michel, disse-nos: “Não me considero um cientista. Não me interessa quantas escamas tem um peixe, mas sim sua importância para a manutenção do equilíbrio ecológico do meio onde ele está inserido”. E, mais tarde, num tom de sobriedade, afirmou: “Revelar a Amazônia através de sua beleza, nada mais é que a constatação de sua mais pura realidade”. Também disse: “O motor solar dos trópicos, acelerado pelo líquido da vida, a água, determina essa exuberância de vida”.

Confesso que partilhar dessas informações e comentários junto àquele homem, contestado por uns e amado por outros, mas, sobretudo, soberano no desejo de preservar a vida em nosso planeta, foi um imenso privilégio.

Fazer parte da equipe científica do comandante Cousteau e representar o Brasil na “Operação Amazônia” foi, sem dúvida, um motivo de profundo orgulho e felicidade, não apenas por desfrutar de todo aquele aparato tecnológico, que nos permitia coletar com precisão os dados físico-químicos do meio aquático ou do material e equipamento para a coleta do plâncton, mas também por desfrutar da companhia daquele que era uma verdadeira lenda viva dos mares.

A maior lição que eu tive, durante minha estada com Cousteau, é de que a simplicidade e a humildade são próprias dos grandes homens que fazem diferença a favor da vida.

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Sendo professor do ensino médio na disciplina de Biologia, professor universitário nos Cursos de Biologia e Engenharia Ambiental, e mestre em Ecologia, como o senhor vê a situação atual de nossos ecossistemas?

Acredito que o Universo é regido por uma grande lei, que é a “Lei do Caos e do Cosmos”. Sendo assim, a desordem e a ordem andam lado a lado. Por um lado, vemos muitos homens poluindo e contaminando o meio, exercendo atividades predatórias, não só de recursos bióticos (vivos), mas também de recurso abióticos (não vivos), além de continuarem violando, constantemente, princípios básicos de equilíbrio ecológico, através de monoculturas, uso de agrotóxicos e transgênicos.

Por outro lado, vemos muitas instituições de pesquisa, de educação, orgãos não governamentais, governantes de países e grupos civis que, cada vez mais, estão voltados ao cuidado com a preservação dos recursos naturais, bem como o exercício de uma espiritualidade como base para a construção de uma sociedade ecologicamente sustentável. Entre a escolha do “Armagedon” e da “Utopia”, prefiro dar uma chance a “Utopia” e me abraçar nela. Afinal de contas, como professor, sou arquiteto de sonhos, e o que desejo a todos é que criemos, através de nossos jovens, sonhos e não pesadelos.

Para que possamos melhorar como pessoas e contribuir com a natureza, o que podemos efetivamente fazer como cidadãos comuns? Pequenas ações podem humanizar nossa relação com o meio ambiente? 

Acredito que os itens abaixo são ações que visam a humanizar mais a nossa relação com o meio ambiente.

Reduzir o consumo: reduzir os supérfluos;  pôr no prato apenas aquilo que se vai comer; reformar e conservas as coisas, no lugar de substituí-las por outras; doar os objetos e roupas que não são mais necessários para quem precisa; desligar a TV se não estiver assistindo e a luz do lugar onde não houver alguém; evitar o desperdício de água.

 Reutilizar produtos: reaproveitar os potes de sorvete para guardar comida; reaproveitar vidros que podem servir para armazenar alimentos ou outros objetos; utilizar garrafas PET para fazer sofás, puffs, camas; utilizar a frente e o verso do papel para escrever.

Reciclar materiais: reciclar metal, plástico, papel e vidro.

Nos momentos de lazer, o senhor mantém contato in loco com a diversidade marítima? 

Sempre que possível faço uma caminhada na praia, realizo flutuação, embarco em alguma embarcação para contemplar e aprender com a diversidade marinha. Ele me ajuda a compreender e a respeitar a diversidade humana.

Quando entra em sala de aula, qual sua meta como professor? O que o senhor vislumbra ensinar, deixar de legado aos alunos?

Como professor educador, devo supor que o currículo que prescrevo para  os jovens os prepara, não só para um mundo mecânico, técnico, complexo e em constante mudança, mas também para seu bom relacionamento com outros seres humanos e com a vida que os cerca.

Entendo que, numa escola, terei sido justo se preparei excelentes médicos, advogados, oceanólogos, administradores, engenheiros… . Mas, terei sido completo na arte de educar se deixar para meus aprendizes, também, um pouco de autoestima, autoconfiança, autorrespeito e autodisciplina. Se deixar um pouco de coragem para mudar, arriscar e vencer o medo. Se deixar um pouco de felicidade, alegria e prazer de viver. Se deixar a esperança no futuro e o desejo de fazer do mundo um lugar melhor de se viver.

“Sei que a esperança e a apreensão pelo futuro estão sempre coexistindo lado a lado. No entanto, acredito que novos caminhos repletos de alegria, sabedoria e maravilhas estão ainda para serem abertos em todos os campos da atividade humana.Quero crer que, enquanto tivermos a vida, gerarmos a vida e quisermos participar, com amor, de sua teia, haverá esperança para a construção de um mundo melhor”.

Costumo dizer, aos meus companheiros de viagem, que os melhores legados que  podemos deixar para aqueles que vem depois, são: “sabedoria e amor”.

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Volnei autografando sua obra na Feira do Livro de Caxias do Sul – 2016

Confira as obras já publicadas por Volnei Flávio Soldatelli:

“Vida, amor, educação, seus caminhos….” e “Vida, amor, educação e seus novos caminhos”: duas obras que fazem uma leitura  e releitura do que considero mais sagrado sobre a arte de viver, amar e educar, através de uma visão holística.

“A Vida no Planeta Azul”: um passeio de forma didática por toda a  ecologia do planeta.

“A Amazônia que conheci com Jacques-Yves Cousteau” e “A Amazônia que Conheci a Bordo do Calypso de Cousteau”: narram a experiência da convivência e aprendizado junto a Cousteau.

“Operação Amazônia”: narra a participação nessa “Operação”, bem como toda a ecologia da Amazônia.