O estudo da literatura em sala de aula

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* Por Kamila Girardi

As metodologias comumente utilizadas pelos professores para o ensino de literatura nas escolas vêm ganhando ênfase nas discussões teóricas sobre o assunto. Tradicionalmente, a literatura que aprendemos e ensinamos tem o seu foco no estudo dos períodos literários, aproximando-se muito mais da disciplina de história do que dos conhecimentos da língua. Assim, deixa de lado o mais importante dos elementos da disciplina: o contato com o texto literário e o seu entendimento.

O professor, preocupado com a quantidade de assuntos que deve abordar durante o ano letivo, muitas vezes, detém-se apenas aos aspectos superficiais dos textos. Geralmente, enfatiza as características comuns ao movimento literário em questão e cita outros autores e obras que fizeram parte da mesma escola. Essa maneira de ensinar literatura desestimula o aluno a ler textos literários, pois ele não consegue entender a essência do verdadeiro sentido que esses textos carregam.

Oliveira (2010), em “O ensino pragmático da literatura”, afirma que o impasse começa na divisão do ensino de língua portuguesa em três outras disciplinas: português, literatura e redação. Todas essas três matérias são peças de um mesmo quebra-cabeça e somente quando juntamos todas elas é que podemos enxergar com clareza qual é o seu real propósito. O autor ressalta ainda que o brasileiro não simpatiza com o texto literário e atribui isso a dois fatores: o primeiro é o conteúdo da disciplina e o segundo é a má-formação do professor de português para o ensino de literatura.

Para Oliveira (2010), a literatura, ensinada através dos movimentos literários, demonstra uma visão cronológica dos períodos e a aproxima muito da disciplina de história, distanciando-se assim de seu real objetivo. Devemos lembrar que a literatura, segundo o autor, serve, principalmente, para que o estudante desenvolva a sua capacidade de usar a língua. Outra problemática, de suma relevância, que o autor destaca, é que os alunos, geralmente adolescentes, são forçados a ler obras que requerem maturidade, desestimulando-os à leitura dos textos literários. Cabe ao professor ajudar o aluno a desvendar a complexidade das obras, amparando-os nas dificuldades em compreendê-las.

Cosson (2010), em “O espaço da literatura em sala de aula”, destaca que durante muito tempo a literatura foi utilizada, em sala de aula, para o domínio da norma culta da língua, estabelecendo fortes relações entre a escola, a língua e a sociedade, apresentando-se, assim, como a essência da formação humanista. Porém, a expansão cultural e a priorização da formação técnica e científica acabaram por redefinir o papel social da leitura e da literatura, acarretando no encurtamento da sua presença em sala de aula.

A exploração do texto literário na escola, para Cosson (2010), parte da interrogação e da admiração por parte do aluno, o que significa que ele está disposto a discutir sobre o texto, estimulado a buscar sua compreensão para, então, desenvolver uma interpretação. Além disso, cada aluno percebe o texto de uma maneira diferente, que pode variar de acordo com a faixa etária, comunidade em que vive, seu conhecimento de mundo, entre outros. A mediação do professor, em todos os casos, é fundamental para que haja compreensão das diferentes percepções. O professor é aquele que contribui para a formação do leitor, por isso deve aproveitar cada oportunidade para despertar o interesse dos alunos pela leitura e pela literatura.

Segundo Oliveira (2010), muitas vezes o aluno é desestimulado a procurar textos literários para uma leitura prazerosa, pois muitos professores, e livros didáticos utilizados nas escolas, recorrem ao texto como pretexto para ensinar gramática. Para o autor, o aluno acaba lembrando-se de determinado escritor ou texto de forma negativa, rotulando-o de acordo com o estudo da função gramatical atribuída à unidade, sem levar em conta a riqueza de sua estética e de seu conteúdo. Essa forma de ensino equivocada, Oliveira (2010) atribui à falta de uma boa formação dos professores de literatura, criticando os cursos de Letras por não possuírem, em suas grades curriculares, uma disciplina específica para que o licenciado aprenda a ensinar literatura.

Mas afinal, qual é a importância de ensinar literatura e estimular os alunos a lerem textos literários? Que serventia possui a literatura para a formação do aluno? De acordo com Oliveira (2010), é papel do professor despertar o interesse dos alunos pela leitura de textos literários, mostrando-lhes qual sua real serventia. Primeiramente, o autor ressalta que o maior benefício da leitura é o desenvolvimento intelectual do estudante. Além disso, contribui para o desenvolvimento das competências comunicativas, uma vez que o texto literário é um baú cheio de tesouros, onde descobrimos novas palavras e novos usos para elas. A literatura contribui, também, para manter a língua em exercício, para ampliar os conhecimentos de mundo dos alunos e para instigá-los a desenvolver o hábito de realizar leituras críticas, seja de textos literários ou não literários.

Para Ramos e Zanolla (2008), o leitor interage com o texto literário, estrutura linguística, com a finalidade de construir sentido, sendo crucial para essa construção que se conheça o seu funcionamento, uma vez que o leitor terá que enfrentar, diante das leituras, dificuldades cada vez que se deparar com diferentes estruturas e funcionamentos. As obras literárias possuem diferentes recursos linguísticos que criam efeitos estilísticos e possibilitam a atribuição de vários sentidos a elas. Cabe ressaltar, que os autores destacam a literatura como responsável pelo desenvolvimento de competências de leitura e escrita e como aquela que permite ao sujeito refletir acerca da condição humana. Ler nos faz mais humanos e possibilita conhecer melhor os outros e a nós mesmos.

É responsabilidade do professor contribuir para a formação de indivíduos letrados. Ler um texto não terá nenhum significado para o aluno se ele não alcançar a compreensão necessária para interpretá-lo. A literatura deve ser apresentada como um mundo a parte, o qual permite viver experiências incríveis. Cabe ao docente planejar suas aulas de forma criativa, utilizando recursos diversos para despertar a curiosidade do aluno, instigando-o, assim, a interessar-se pela literatura. No ensino médio, as leituras complexas de obras mais maduras fazem com que o aluno acabe não gostando de ler textos literários, pois não consegue entendê-los. O papel do professor é ajudar o aluno a compreender suas leituras, estimulando-o, assim, a procurar por outros textos, o que consequentemente irá influenciá-lo a buscar, com o tempo, as leituras de maior complexidade.

* Kamila Girardi: Graduada em Licenciatura Plena em Letras pela Universidade de Caxias do Sul e professora de Língua Portuguesa e Literatura do Colégio Mutirão de Bento Gonçalves.

Referências Bibliográficas:

OLIVEIRA, Luciano Amaral. O ensino pragmático da Literatura. In:__. Coisas que todo professor de português precisa saber: a teoria na prática. São Paulo: Parábola, 2010.

MACIEL, Rildo Cosson. O espaço da literatura na sala de aula. In:__ Literatura: ensino fundamental. Brasília: Ministério da Educação, 2010.

RAMOS, Flávia Brichetto; ZANOLLA, Taciana. Repensado a aula de Literatura no Ensino Médio: a interação texto-leitor como centro. In:__ Cadernos do aplicação. Porto Alegre: 2008.

 

 

 

 

 

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